Será que Nelson tinha razão?







Estava no aeroporto do Rio de Janeiro, voltando de uma dessas viagens a trabalho. Cheguei cedo para não pegar engarrafamento no caminho e arriscar perder o voo. Portanto, esperei muito para embarcar. 

Uma senhora que me viu sozinha, sentou-se ao meu lado. Puxou conversa. Disse que tinha medo de avião, mas que estava indo ao Recife para rever os filhos. Coincidência ou não, eu também não gosto de avião.

Ela desenrolou a sua história: O marido tinha se aposentado e eles foram morar no Rio. A cada seis meses ela vinha ao Recife ou quando batia a saudade. Em Recife, ficou o casal de filhos. O filho mais velho era divorciado e isso quase lhe custou à vida. Nele, estava toda a preocupação desta senhora.

Continuei escutando sua história e vez por outra, interrompia para comentar a narrativa.

Entramos no avião. Para a nossa surpresa, as nossas cadeiras eram juntas – ela na janela e eu no corredor. Blá, blá, blá, blá.

Conversamos do Rio até Recife. Blá, blá, blá, blá. E a viagem pareceu rápida. Nada de turbulências.

Quando o avião aterrissou pensei que tinha feito uma nova amizade. Tirei da bolsa meu cartão pessoal e ao entregar para mantermos contato no futuro, percebi que ela simplesmente recebeu sem expressar, contudo, o desejo de dizer o seu telefone.

Quando saímos do avião, ela se afastou e sequer se despediu.

Então, eu lembrei do que disse o dramaturgo pernambucano Nelson Rodrigues, certa vez, ao ser entrevistado pela escritora/jornalista Clarice Lispector: “O amigo possível e certo é o desconhecido com que cruzamos por um instante e nunca mais. A esse podemos amar e por esses podemos ser amados. O trágico na amizade é o dilacerado abismo da convivência”.

Será que Nelson tinha razão? 




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