A borracha que apaga a memória





Eu percebi, realmente, que meu pai não estava bem num final de semana que estávamos em Gravatá, quando pedi que ele colocasse uma garrafa d’água na geladeira. Eu estava ocupada no balcão da cozinha e quando vi, ele estava parado em frente à geladeira. Eu pensei que ele estava observando os imãs decorativos, mas eu encontrei depois a garrafa em cima da geladeira. Estranhei.

Papai já vinha dando sinais de levíssima perturbação.

No último réveillon (2011) que passamos na praia, ele tinha dito para minha mãe que não voltaria mais lá, porque as pessoas que estavam vestidas de branco eram todos ladrões. Na verdade, todos, inclusive nós, éramos veranistas. E todos os anos, aliás desde que meus filhos eram crianças, que passávamos o réveillon em Serrambi.

Começamos, então a investigar os sintomas...

Inicialmente, levamos papai à clínica de geriatria de um hospital particular de referência em Recife (Real Hospital Português). Foram solicitados vários exames, incluindo tomografia e nada foi diagnosticado. Levamos a outro médico geriatra de nossa confiança e ficamos sabendo que papai tinha, apenas, uma demência senil, natural da idade.

Papai começou a trazer à tona assuntos e queixas que estavam guardados por longos anos, e depois entrou no mundo do silêncio. Ele nunca tinha sido um homem de muitas conversas, mas aquele silêncio aparentava ser tristeza e os médicos diagnosticaram, logo em seguida, como depressão.


A instalação deste interruptor já mostrava que ele não estava bem. Papai gostava de
consertar as coisinhas dentro de casa. Como mamãe dizia: "ele está fazendo trela", já que não era habilitado para isso. Apenas, esta semana, o interruptor foi trocado.


E a “depressão” foi tratada com remédios e sessões de psicoterapia. Não houve avanço. Por essa época, papai ia todos os dias à padaria, falava normalmente e interagia com todos. Porém, em alguns momentos, ele fazia coisas que parecia ter desaprendido a executar. Mas, os médicos continuavam afirmando ser depressão. E os remédios deixavam papai sonolento o dia todo.

Até que, no fatídico julho de 2013, papai subiu no avião com destino a São Paulo, para visitar a família, e voltou outra pessoa. No avião, ele perdeu a noção do espaço e do tempo, apesar de acompanhado da minha mãe e irmão. Papai aterrissou perturbado em São Paulo e o Mal de Alzheimer, finalmente, deu a sua cara. Quando ele voltou ao Recife, não sabia sequer se tinha casa. Porque, o doente de Alzheimer não deve sair do seu ambiente habitual, de referência.

Começava um período de lutas para família e surpresas por ver a cada dia, papai se esquecendo de tudo e de todos, exceto da minha mãe (foram 63 anos de casados) e irmã mais velha – que mora na mesma casa. No entanto, todas as etapas estavam sendo acompanhadas por médicos e fisioterapeutas.

A doença avançou rápido.

Mas, em surtos também rápidos, esporádicos e normais de memória, ele disse algumas frases como:

- “Para que tomar esses remédios se eu não fico bom?”;
- “Se fosse para eu ficar assim, preferia ter morrido”;
- “Cuida dela, Nena (minha mãe), porque está doendo muito” – se referindo ao ferimento na minha perna, provocado por uma queda.

E pediu que minha irmã mais velha, cuidasse do que era dele, incluindo a sua maleta de ferramentas.




Papai se foi, em 20 de junho deste ano. Hoje (30/10/2016), ele estaria completando 91 anos entre nós. Estamos na saudade, mas pelo homem bom que ele foi, a espiritualidade certamente está em festa.

Sobre a doença, uma pergunta ainda paira em todos da família: Até que ponto os médicos estão preparados para dar um diagnóstico precoce da doença?

Quando a atriz Irene Ravache gravou uma campanha alertando sobre o Mal de Alzheimer, afirmou que o diagnóstico de sua mãe foi tardio e isso dificultou o tratamento. Aconteceu o mesmo com o meu pai.

Então, fica o alerta para todos: 

- Não menosprezem lapsos de esquecimentos; 
- assuntos ditos pelo idoso e que estão em desacordo com o momento;
- mudança de comportamento como agressividade;
- sintomas que aparentam depressão, entre outros anormais. 

Instiguem os médicos ao diagnóstico preciso. Talvez, muito sofrimento pudesse ter sido evitado se os médicos tivessem dado o diagnóstico correto.




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