Sabe papai...







Sabe papai, hoje meus relógios pararam, literalmente. Aqueles dois imensos relógios que regulam minha pressa pela manhã, que me fazem correr contra o tempo, me arrumar, pegar as bolsas, as chaves do carro e sair para trabalhar todos os dias? Hoje, eles pararam.

Talvez porque a pressa perdeu o sentido quando a vida nos coloca numa encruzilhada entre decidir qual o melhor procedimento que iríamos autorizar para  os médicos realizarem e você poder ficar mais tempo entre nós.

E pelo visto, o dia de hoje também parou para a sua esposa, filhos, genros, nora e netos. Porque lá estávamos todos nós ansiosos para entrar na UTI e alisar sua cabeça, beijar seu rosto, apertar a sua mão, e ouvir suas suaves reclamações de algo que poderia estar lhe incomodando.

Sabe papai, eu me lembro quando ainda era criança e brincava com uma bacia de alumínio, no quintal lá de casa. Você estava saindo para trabalhar apressado e disse para que eu não sentasse dentro da bacia porque iria amassá-la. Então, eu sentei e desafiei sua autoridade. Você me tirou da bacia e me deu uma palmada. Apenas uma palmada foi o suficiente para eu saber que na vida é preciso ter respeito sempre e, em muitos momentos, saber obedecer.

Não lembro mais, papai, de outros fatos como este, com palmadas. Porque simplesmente, eles não existiram. Dedicado à família e ao trabalho, você soube nos ensinar pelo exemplo, carinho, companheirismo e compreensão.

Mas, sabe papai, hoje, a vida me deu uma grande palmada. E mesmo curvada a vontade do Criador – esse Pai que sabe tudo, o nosso grande Deus, eu disse sim ao procedimento invasivo da medicina para deixá-lo mais tempo entre nós.

E sabe papai, eu não sei se hoje fiz uma malcriação, também não sei se era essa a sua vontade... Então, perdoe-me. 



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