Eu não nasci com essas coisas, mas…



Por Maria Cecília Maroja e Marina Varela


O ENSAIO

Este ensaio tem como objetivo catalogar coisas com as quais as pessoas não nasceram, mas que possuem importância e fazem diferença em suas vidas. São objetos, marcas, que funcionam como uma extensão do corpo dos personagens e ajudam na formação de suas identidades. Nas imagens, são os detalhes que ganham maior destaque. Os modelos selecionados são estudantes do Centro de Artes e Comunicação (CAC) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

As fotografias foram tiradas de maneira rápida, sem o planejamento do estúdio. Tomamos como referência o projeto Humans of New York, que fotografa figuras anônimas e narra um pouco sobre suas histórias, e a obra do fotógrafo Mário Cravo Neto, conhecido por seu trabalho com retratos.

A câmera utilizada foi uma Canon T3i.

Os Modelos

Amanda Carolina Duarte 




Eu não nasci sabendo cuidar dos meus cabelos… mas eles me ajudaram a me aceitar.

“Eu usava o meu cabelo muito preso na escola, com tranças e rabos-de-cavalo, mas em um momento muito importante da minha vida eu decidi libertá-lo, assumi-lo. Foi quando eu passei no vestibular e entrei para a faculdade. O cabelo é um aspecto que mostra as pessoas que eu mudei. Hoje eu me aceito mais, tenho muito mais autoestima, o que acaba sendo refletido na forma como as pessoas me veem. Além disso, meu cabelo se tornou a minha marca, várias pessoas me conhecem como a ‘branquinha de cabelo cacheado’ e eu adoro isso! Agora que eu sou mais ligada a movimentos de resistência e a identidade negra, eu percebo o quanto os cachos são um símbolo importante. Eu adoro quando, por exemplo, eu tô na parada de ônibus ou em algum outro lugar e as pessoas me param dizendo ‘eu tenho uma filha que tem cabelo cacheado, como é que você cuida dele? Eu achei ele tão lindo’. A primeira coisa que eu digo é NÃO ALISE! Não faça química, não deixe ela mudar isso porque o cabelo da sua filha é lindo do jeito que é”.








Henrique Asevedo






Eu não nasci com essa roupa, mas… ela representa quem eu sou.


“Desde pequeno, quando eu ia para a casa de vóinha, era para ficar eu, minha mãe e minha avó conversando sobre roupas. Eu adorava ficar vendo revistas de moda e acabei aprendendo muita coisa com isso. Quando eu cresci, comecei a ver que tinha roupas que eu queria ter, principalmente do guarda-roupa feminino, mas que eu não encontrava em lojas convencionais porque essas lojas trabalham para o ‘público geral’. Então eu comecei a personalizar minhas roupas. Eu gosto mais das roupas que eu faço do que as que eu compro porque tem mais a minha cara, meu estilo”.




Nathallia Fonseca





Eu não nasci com essa tatuagem, mas…ela simboliza um dos marcos da minha vida.

“Os primeiros amigos que eu tive foram a partir de Harry Potter e é algo que tem um significado muito grande na minha vida. Foi a partir da leitura dos livros que eu fui introduzida a um meio social do qual eu não fazia parte. O expecto patronum representa uma espécie de proteção. Na história, é um feitiço que ‘afasta’ os dementadores, que de acordo com a autora são uma metáfora para a depressão, que é algo que eu tive durante a adolescência. As pessoas que eu conheci através dos livros foram as mesmas que me ajudaram com esse problema. Se fosse só por gostar de Harry Potter, eu não teria feito a tatuagem, mas  por causa desse episódio, é algo que eu sei que quando tiver 80 anos, eu ainda vou lembrar do quanto essa história foi importante para mim”. 





Marlon Diego




Eu não nasci tatuado… mas essa é a minha maneira de sentir a arte.

“Eu gosto muito de modificar o corpo e, para mim, a tatuagem é uma das artes mais bonitas que existe. Não é algo fácil de se fazer. Tem o processo de escolha. A escolha do tatuador, a escolha do desenho, que pode tanto significar algo mais íntimo ou que pode falar sobre qualquer coisa… Além disso, tem a questão da dor, de sentir a dor. É como se você sentisse a arte sendo feita, seu corpo mudando. Eu acho isso lindo”.






Ademara Thalyta







Eu não nasci com unhas longas… mas elas são um lembrete da minha força.

“É preciso certa resistência pra manter as unhas assim, tanto no âmbito da alimentação, que precisa ser razoavelmente saudável pra que as unhas cresçam, quanto no âmbito do cuidado externo com elas porque elas podem machucar. De certa forma, isso me traz certo conforto pessoal, é como uma espécie de arma natural do feminino… Não que eu ache que o uso de unhas grandes diz respeito necessariamente à feminilidade. Um homem pode usar unhas grandes sem ter uma identificação com o gênero feminino, mas, como culturalmente isso é mais comum no âmbito feminino, eu considero um ‘apetrecho’ de poder do feminino. É algo que não designa uma fragilidade, como tradicionalmente é descrito o nosso gênero, mas sim certa força, já que posso literalmente machucar alguém usando minhas unhas”.


2 comentários:

  1. Amanda, você sempre será a menina dos cabelos cacheados... branquinha como a mãe, linda como ela...

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Obrigada pela visita.