O homem humilde




Era uma vez dois homens, bons e honestos, que viviam no conforto e na tranquilidade de suas terras, vastas e produtivas.

Eis que, num dia daqueles que nada daria certo para eles, uma turba de invasores toma as suas terras, deixando-os desamparados e entregues à própria sorte.

O primeiro homem, racional e orgulhoso, levou o caso à Justiça e, depois de uma intensa e dispendiosa demanda, conseguiu recuperar todo o seu patrimônio dilapidado. Mas nunca mais conseguiu ser o mesmo, amargurado com os homens e com a demora da Justiça.

O seu ódio contra os invasores só aumentou, apesar dos responsáveis terem sido banidos da sociedade onde viviam. Nunca conseguiu entender porque, sendo bom e honesto, fora vítima desse mal. Culpava a sua má sorte e achava-se castigado e abandonado por Deus.

O segundo homem, sábio e humilde, compreendeu a situação em que passava, percebeu, do fundo do seu coração, que todo mal tinha uma razão de existir e que era chegada a hora deixar tudo que conquistara para trás e recomeçar a sua vida. E, contra a vontade de seus amigos e familiares, renunciou a tudo que tinha por direito e foi para a cidade a procura do seu novo destino.

Na cidade, anos depois, tornou-se um reconhecido comerciante, que costumava comprar tudo que era produzido pelos agricultores, inclusive, no anonimato, daqueles que haviam invadido as suas terras, a ponto de oferecer-lhes crédito antecipado e garantir custeio e mais produção.

Dessa cooperação, juntos, prosperaram...

E os seus amigos e familiares não conseguiam entender como, depois de tamanha perda e ofensa, alguém conseguia se reerguer, sem que guardasse qualquer mágoa ou rancor dos seus antigos algozes, a ponto de ajudá-los e, juntos, prosperarem.


É que a razão não consegue compreender que, no âmago do amor, há uma inteligência sublime e universal, que faz o homem humilde renunciar, perdoar e ainda ter motivação e força para se soerguer e ajudar os seus piores inimigos.

(Texto de Ruy Trezena Patú Júnior, magistrado e escritor)

Bom início de semana.





Um comentário:

  1. Um belo texto, muito profundo e inspirador. Obrigada por compartilhar.
    Beijos!

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