Uma leitura sobre a amizade





Por Dayse de Vasconcelos Mayer

As frases impactantes formam um repositório em nosso cérebro. É a regra. Elas ficam em maturação como se fossem frutas cristalizadas imersas em vinho para confecção do bolo natalino. A maioria das vezes elas tolhem nossa liberdade e vivacidade. Ficamos prisioneiros de parte delas. A ideia adentra pelos neurônios como se fossem empolas ocultas.

Exemplo: O desabafo etílico de uma velha amiga: Toda amizade tem um período de validade. Calou-se envergonhada. Já havia dito. Senti o estilhaço de uma peça de fino cristal no meu ouvido. A amiga guardou que eu retrucasse. Optei pelo silêncio, mesmo sabendo que ele detém um peso considerável. Mas a reflexão permaneceu incólume como se estivesse em formigamento. Sempre admiti que as amizades legítimas resistissem ao tempo e às circunstâncias adversas. Então, o que haveria de correto e válido na afirmação destemperada de uma intelectual pragmática?

A memória recuou em demasia. Relembrei  a frase de Agamenon Magalhães: Nilo, vou aos 80. Jamais atinaria o governador que a morte o espreitava de forma sorrateira. Registrava o encontro insólito com pinceladas fortes. Apenas para repetir o verso de Garcia Lorca: Eran las cinco em punto de la tarde. E o China Gordo, aos 58 anos, apostava orgulhosamente, nos exames clínicos. Como se fossem promissórias já quitadas. Pensei na morte como um considerável obstáculo em nosso caminho. Será que a validade terminaria nesse instante?

No fundo a palavra amizade carrega consigo um infinidade de valores. Envolve o imaginário, a realidade, a ficção, o mito. Sabe-se que no plano da realidade - que jamais se confunde com a fantasia - o homem é um ser invejoso e interesseiro por natureza. Sob o aspecto biológico continua a ser um animal, embora elevado em sua dignidade. Também persegue o poder. O êxito e a felicidade do outro não são dignos de perdão. 

Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, foi um poeta bem-sucedido, citado e reverenciado. Todavia não foi poupado. Afirmavam que ele havia sido nacional e internacionalmente consagrado porque cooptou com a ditadura de Vargas e foi chefe de gabinete de Capanema.

A crítica foi mais além: as obras do escritor eram fastidiosas e entorpecentes. Tudo que havia produzido gerava bocejos. Com boa vontade, alguns críticos aceitavam a palavra ensaísta aplicada ao poeta. Mas diziam que os ensaios eram tão herméticos que poucos liam, embora as frases do autor fossem excessivamente citadas e multiplicadas. Dizem algo aparentado de João Cabral de Melo Neto e de muitas outras pessoas com êxito.

A questão é que o homem - livre e consciente - ainda não intuiu que todos que sobem demasiado têm o seu momento inglório de descida. É uma lei inexorável. As amizades tendem a crescer em quantidade no ato de subir e perdem a validade no instante da descida. É o momento do grande impacto e, na sequência, da solidão. Talvez, quem sabe, seja a ocasião de rematar que toda grandeza abrolha no momento das grandes perdas e descobertas. Talvez - é uma hipótese - a validade dos afetos atravesse esse amargo ou acerbo ritual de passagem.

(Amizade e validade, crônica de Dayse Vasconcelos Mayer,
publicada no livro "O risco é o caminho", Gregory, 2013).

2 comentários:

  1. Amigos verdadeiros são a extensão de nossa família. De fato representam o melhor da vida fora de nosso laço de sangue. Grande abraço minha amiga!

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