A letra pode matar o bom senso



                          No Egito antigo, havia um rei que tinha um único filho.

Seth era um menino bonito, alegre, gostava de andar pelo reino e brincar com outras crianças. Mas, Seth tinha um problema: de vez em quando, e inexplicavelmente, ficava doente. Quando isso acontecia, o rei paralisava todas as suas atividades e, junto com a rainha, se dedicava noite e dia ao filho.

No reino havia um curandeiro famoso por seus tratamentos com ervas, unguentos e chás. O rei ordenava aos súditos que fossem buscá-lo a qualquer dia e hora. E vinha o pobre homem, já velho e cansado pelas lutas, tentar minimizar a dor do rei e tentar, também, curar o seu filho. Geralmente, eram três dias e três noites de dor e sofrimento onde todos se dedicavam à criança.

Seth cresceu. E assim como ele, várias outras crianças do reino. Entre elas, estava Maiba, filho de um dos súditos. Maiba saiu do reino, estudou, tornou-se médico e voltou.  No reino, começou a espalhar entre todas as pessoas que o uso de plantas medicinais, sem passar por uma fabricação, estava errado.  Então, para ilustrar o que falava, ele abria um livro, repleto de teorias e normas de procedimentos e apresentava as pessoas.

A notícia foi se espalhando pelo reino e, aos poucos, as pessoas começaram a difamar o curandeiro. Ninguém mais o via com bons olhos, exceto aqueles que possuíam quase a sua idade. As pessoas queriam mesmo se consultarem com Maiba, o médico.

Um dia, Seth um jovem já com seus 27 anos, foi acometido de um mal súbito. Ninguém havia visto quando ele desmaiara próximo ao castelo. O rei, preocupado, mandou chamar Maiba, com urgência.  Atendendo ao pedido, Maiba foi ao castelo. Foram três dias e três noites de tratamento com os remédios fabricados e aplicados pelo médico. Mas, ao final do terceiro dia, o jovem Seth não apresentava melhoras.

O rei, já desesperado, perguntou a Maiba:

- Afinal, porque seus remédios não curam meu filho? Veja, ele está agonizando - e apontou para Seth abatido sobre a cama.

- Meu rei, disse o médico. Não sei o porquê de Seth não responder ao tratamento. Apliquei todos os conhecimentos que estão nos livros. Perdoe-me, Senhor.

O rei, às pressas, chama um de seus empregados e diz:

- Vá depressa buscar o velho curandeiro. Diga-lhe que meu filho está morrendo e precisa de sua ajuda.

Pouco tempo depois, o empregador trouxe o velho curandeiro. Ele entrou no quarto e, silenciosamente, colocou as mãos sobre a cabeça de Seth, fechou os olhos e fez uma prece. Depois, disse ao rei:

- Seth precisa de cuidados. Mas, neste momento, seu espírito precisa de oração.

Todos que estavam presentes se ajoelharam e começaram a orar. Enquanto isso, o velho curandeiro começou a aplicar seus unguentos no corpo do jovem. Ao final da tarde, Seth já dava os primeiros sinais de melhora para alegria do rei e de todos que estavam presentes.

O rei já bastante aliviado observou que o curandeiro se recolhia a um canto do quarto, silenciosamente. O rei se aproximou e disse-lhe:

- Por muitos anos, meu velho, foi você quem tratou de Seth. Diga-me, o que fez de diferente do médico Maiba?

O curandeiro levantou a cabeça, fixou o olhar no seu rei e disse:

- Durante todos esses anos, Seth foi tratado com as mesmas ervas que estão nos remédios aplicados por Maiba. A diferença é que, ao mesmo tempo em que aplicávamos o medicamento, também tratávamos o seu espírito, através das orações e dos fluídos encontrados na natureza. Seth sempre foi tratado com muito amor.

Moral da história:

A letra pode matar o bom senso. O apego exagero às normas pode engessar procedimentos que sempre deram certo. O conhecimento, com vaidade, pode levar ao menosprezo à sabedoria dos bons.  Todos nós somos aprendizes na escola da vida, mas cabe a cada um reconhecer a ajuda do alto. 

Bom início de semana.






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