A doçura das avós





Texto de Dayse de Vasconcelos Mayer


(Para todas as avós)


Dizem que as avós têm pouca energia. Não acredito. A palavra energia é um desses vocábulos polissêmicos que abarcam a idéia de vitalidade física e psíquica. Aqueles que já ultrapassaram a faixa dos 50/60 talvez já estejam com o vigor físico diminuído, mas são compensados pelo denodo da alma, viveza do caráter, sabedoria e experiência. Recordo que as minhas avós, cada uma a seu modo, repassaram-me as doçuras da vida. A materna tinha o nome de Anunciada – a mulher serena, afável, terna e de uma simplicidade singular. Acho que este deveria ser o nome de todas as avós do mundo. Significa comunicar alguma coisa e transmitir uma notícia alvissareira. Recordo a mensagem do anjo Gabriel à Virgem Maria anunciando que seria a mãe de Jesus.




Penso na felicidade de uma criança que pode ter avós e conviver com eles. Raquel de Queiroz, em uma das suas crônicas e poesias, acentua que os netos caem repentinamente do céu, num ato de Deus. A dádiva não vem acompanhada das exigências de nenhuma ordem: as dores do parto, as necessidades domésticas, os conflitos entre os cônjuges, etc. Sente-se apenas que o neto nos foi confiado para a redenção dos nossos erros, compensação das nossas perdas e resgate da nossa juventude. São amores novos, profundos, felizes, purificados pelo tempo, purgados de todas as nossas imperfeições ou culpabilidade. Mas a avó possui um importante rival: a filha ou nora. A justificativa é simples: mãe e avó desempenham, respectivamente, o papel de esposa e amante, daí os conflitos por vezes inevitáveis.

Um final de semana na casa dos avós é uma deliciosa fuga à rotina e uma aventura interminável, liberta da disciplina materna: dormir tarde sem escovar os dentes e sem o banho noturno, recusar o leite, comer biscoitos, chocolates e tomar sorvetes, acabar com as resmas de papel do escritório – escondendo desenhos e escritos nos lugares mais improváveis -, ver televisão até altas horas da noite, deixar roupas e toalhas molhadas pela casa inteira, pular em cima das camas, usar canetas, cola, durex e grampeador, quebrar copos e louças e mostrar os cacos com as mãozinhas estendidas e os olhos marejados de lágrimas esboçando as mesmas frases: De novo!, Foi sem querer!



A avó – repetindo, metaforicamente, a situação dos amantes -, vive das sobras do tempo. É a mãe que dorme com o filho, veste-o, ensina os deveres de casa, levanta o cobertor todas as noites para que não sinta frio, etc. Felizmente a avó conta com o cansaço e a rotina desfavorável às mães ou pessoas que vivem sob o mesmo teto e acabam por fazer uso de palavras por vezes irritadiças e mal-humoradas. Por isso a avó é tão sedutora. Além de residir em outra casa, está sempre bem disposta, feliz – mesmo quando as articulações diminuem sensivelmente o seu entusiasmo -, perfumada e pronta para a satisfação dos desejos dos seus amados: viajar ou planejar passeios, adquiri presentes, ir ao cinema, ser a confidente idônea nas horas de ressentimento com os pais, colegas e namoradinhos, jantar e almoçar em restaurantes...

Certamente haverá outras distrações que enriquecem o dia da partida final. Mas isso é uma contingência que paira sobre nós todos. Restarão os retratos de um tempo em que precisamos de colo e a recordação doce de um amor sem exigências de cobranças e recompensas.

Texto contido no livro:
“O Risco é o caminho: crônicas”, editado pela Gregory, em 2013.



Parabéns pelo seu Dia - 26 de julho.



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