Cabelos vermelhos e um flanelinha





Cena 1:

Entrei numa das farmácias do meu bairro, como geralmente faço, e pedi informações à vendedora sobre tinturas para cabelos vermelhos. Ela, muito animada para um domingo pela manhã, começou a demonstrar várias marcas. Mas, no meio da explicação disse-me: - Eu já tive cabelos vermelhos, lembra?

E eu fiz aquela cara de interrogação. Ela, então, foi mais insistente:

- Você se lembra que eu já tive cabelos vermelhos?

Eu dei aquele sorriso aguado com uma mistura enorme de vergonha e constrangimento e, no gesto de carinho, alisei os braços dela e fazendo um esforço enorme para falar disse:

- Desculpe-me, mas eu nunca prestei atenção.

Ela entendendo o constrangimento que eu estava passando continuou:

- Eu já tive cabelos vermelhos e usei esta tintura (mostrando-me uma marca conhecida no mercado). Pode levar, esta tintura é ótima e a senhora não vai se arrepender.

Perguntei o nome dela e agradeci.

Ela tinha prestado atenção em mim e sabia que eu era cliente assídua da farmácia.

Mas, a pressa diária nos leva a isso: passamos...


Arte sobre imagem capturada na internet


Cena 2

Estava estacionando o carro, no centro do Recife - um dos lugares mais movimentados da cidade e onde uma vaga é disputadíssima pelos funcionários que, como eu, precisam todos os dias se dirigir aos tradicionais órgãos públicos, quando um flanelinha começou a empurrar outros carros (que estavam sem freio de mão) para criar uma vaga para o meu. Quando ele terminou e eu já tinha estacionado, baixei o vidro, agradeci e disse:

- Pode colocar sua folhinha (referindo-me à folha do talão zona azul). 

Não sabia que naquela hora, eu acabava de ofendê-lo.

Então, ele  respondeu:

- Não. A senhora pode colocar a sua folhinha. Eu ajudei a senhora porque estou aqui sempre.

E continuou:

- As pessoas pensam que, porque sou preto e pobre, sou marginal e não posso ajudar as pessoas.

- Mas, eu não penso assim, respondi. (Na verdade, o que quis fazer foi ajudá-lo também porque sei que vender a folhinha é o seu ganha-pão). 

Como não me fiz entender, só piorei as coisas porque ele disse:

- Eu sei e foi por isso que ajudei a senhora. Mas, tem muita gente aqui (e apontou para um dos Fóruns da cidade) que pensa diferente. Pode colocar sua folhinha. Eu tenho 61 anos, trabalho aqui há anos e sou honesto.

Coloquei a minha folhinha do estacionamento, porque já compro antecipadamente vários talões, e o flanelinha sabia que eu tinha porque me vê estacionar todos os dias, no mesmo entorno, para ir trabalhar.












Dos dois fatos, em calendários diferentes, deixam pra mim uma lição: 

“Passamos” pelas pessoas e, mesmo cumprimentando-as todos os dias (como é o caso do flanelinha), excluímos muitas delas do nosso real campo de visão. Excluindo qualquer preconceito, penso que está atitude é inerente ao ser humano. Mas, esquecemos que cada pessoa será sempre única. E foi essa unicidade que, tanto a vendedora quando o flanelinha, ambos certos obviamente, “reclamaram” pra mim. 

Além disso, os dois fatos, me fazem lembrar também de uma frase do apóstolo dos gentios – Paulo de Tarso: “Portanto nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta […]”. (grifo nosso, em Hebreus 12:1)


Excelente início de semana.
















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