Nossa casa, na visão de Dayse de Vasconcelos Mayer






Chego ao trabalho e lá está em cima da mesa um envelope aos meus cuidados, que tinha sido entregue no dia anterior por um portador. Abro e dentro dele está uma seleção de crônicas, deliciosas de se ler e refletir. Por isso fiz de minha leitura diária o livro “O Risco é o caminho”, escrito por Dayse de Vasconcelos Mayer, cujo trato editorial, para quem conhece a autora, sabe que não poderia ser diferente: impecável e elegante. Discorrendo o pensamento por temas do cotidiano, Dayse Mayer convida o leitor para se aventurar nos escritos que ela chama “o exercício incansável do eu”. E saindo das letras jurídicas e científicas que está acostumada,  ela escreve:




“Começo a refletir se as casas não têm alma ou sobre a alma das casas. Pode parecer ideação perigosa. Mas não estou sozinha nessa fantasia. Bastará a leitura da Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, e uma preocupação maior acerca da personagem Clara, embora a minha reflexão caminhe numa outra senda. Principia pelo canto alegre de um bem-te-vi – invasor benfazejo da minha varanda – tão logo uma réstia de sol ingressa pelo cotidiano. Logo percebo que a nossa casa tem algo distintivo ou peculiar: o nosso cheiro e as nossas memórias. As energias que desprendemos assemelham-se a moléculas que se multiplicam de modo indefinido. E cada adereço ou móvel reproduz nossa história, tempo e quadra de vida





Uma sugestão: retire um livro antigo da estante e releia as anotações feitas à margem de cada um. Logo perceberá que são experiências relacionadas com o estado de sentir num determinado instante da vida. Por isso as casas são verdadeiros esconderijos de almas. Cada escaninho é um amontoado de alacridades, tristezas e vivências não saciadas. E por conta dessa certeza as casas não podem ser catalogadas apenas como estruturas artificiais. São, na realidade, o lócus onde se albergam nossos afetos, nossa intimidade e o espaço infinito de liberdade de sentir e criar. É na casa que se desenvolvem os laços mais fundos gerados entre os seres humanos. É no lar que a sensibilidade humana rebenta sob a forma de reminiscências ou sensações agradáveis ou desagradáveis. E as janelas? Elas funcionam como uma ponte levadiça entre o que está dentro e o que está lá fora, impedindo a clausura.

Ainda que seja uma humilde choupana, a casa é o espaço de exaltação, beleza e criatividade do ser humano. Toda casa é rica em obsediante presença de antigas gentes e até de pessoas que partiram e não voltam. Mesmo os desvãos ou recantos mais escuros e sombrios e que poderiam despertar medo e desassossego, apenas exaltam silêncios e espantos. Também há o vento frio que irrompe, por vezes, em tempos de estação invernal. Ainda assim é possível sentir a semente secreta que rasgará o solo e propagar-se-á em ramificações eternas. Lembrará que fora naquela casa que o filho nascera, crescera e dela partira para o mundo de Deus.

A alma das casas também reflete o ir e vir dos nossos sonhos. Mas os sonhos são apenas delírios, desvarios e promessas. Por isso as casas espelham ou reproduzem a nossa capacidade de obstinação, luta, dinamismo, esperança, temor à mudança e ao novo. Somos, afinal, parte, da casa e ela faz parte de nós. Um dia as paredes podem ser demolidas. Assim mesmo restará a terra represada sob o cimento. Ela acolherá nossos desejos e nossa experiência. Revelará, enfim, a eternidade do que somos e do que fomos." [grifos nossos]




A alma das casas, em “O Risco é o caminho: crônicas”, Editora Gregory.







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