Meu Papai Noel






Um dos momentos mais felizes da minha infância era quando eu chegava da escola e lá estavam meus brinquedos, muitas e muitas bonecas para que eu pudesse brincar de casinha, coisa cada vez mais rara entre as crianças nos dias de hoje. E um detalhe: como caçulinha, e com a diferença de 9 anos em relação a minha irmã, eu costumava brincar sozinha, aliás, não tão sozinha já que tinha muitos amiguinhos invisíveis, principalmente, Valdecir - a menina com quem eu sempre conversava...

Voltando a minha casinha, ela reproduzia também o meu imaginário. Nela, eu tinha móveis (de madeira) para quase todos os cômodos e todos tiveram um significado muito especial. Os móveis do quarto de casal e cozinha, por exemplo, eram azuis e eu ganhei numa dessas visitas anuais e esperadas de Papai Noel. Lembro-me bem daquela noite que tínhamos ido ver a decoração natalina do centro do Recife e ao parque de diversões - a Fecim. Quando chegamos em casa, lá estavam todos os móveis arrumados em cima da cama de mamãe. Papai Noel havia passado, não apenas para mim, mas também para os irmãos maiores. Se eu ganhava brinquedos e chocolates, meus irmãos já adolescentes ganhavam muitos chocolates embalados em papel celofane, formando uma cestinha. Nesse ano, Papai Noel tinha passado um pouco mais cedo, é bem verdade, já que ele costumava parar seu trenó lá em casa pelas altas horas da madrugada...




Nos anos seguintes, Papai Noel foi um verdadeiro decorador pra mim. Geladeira, fogão, liquidificador, ferro de passar, panelinhas e tantas outras coisas que uma casinha precisava, inclusive, um cachorrinho de pelúcia, foram recebidos no Natal. Era década de 70 e algumas réplicas dos objetos de casa, como a geladeira azul, eram inovações e, em grande parte, sequer imitavam as funções. Portanto, ter geladeira que não abria porta não era surpresa para nenhuma criança. Mas, a minha... Ah! A minha geladeira azul abria a porta porque não era de plástico e, sim, de madeira. E num desses Natais inesquecíveis, Papai Noel pensou na minha mobilidade. Lá estava perto da Árvore de Natal, prateada, uma bicicleta Monark, vermelha. Ela tinha até buzina. Linda! Um show!

Da bicicleta, eu confesso agora e espero que você me entenda Papai Noel, daí do Polo Norte mesmo, que não tenho boas recordações. Você sabe, não é meu Bom Velhinho, que eu nunca fui uma criança muito medonha, danada, sapeca (?). E foram tantas quedas que eu levei que, somadas ao meu pavor de continuar caindo, logo a bicicleta foi encostada ao canto da sala e depois vendida. Mas, com o dinheiro, mamãe comprou uma vitrola portátil, Philips, cor amarela e preta. Aí sim, foi uma boa troca. Hoje, ela daria um toque retrô na minha sala e permitiria que as lembranças nunca fossem esmaecidas pelo tempo. Foi na vitrola amarela e preta que ouvi a música sem descarte, de Ney Matogrosso, Caetano, Gil, Bethânia à Roberto Carlos (impossível não tê-lo no Natal e grande concorrente como atração, digo, de Papai Noel).

Houve anos, sim, que por causa de tantas crianças para presentear, Papai Noel não conseguiu trazer o presente exato que eu havia pedido, mas chegava perto... Foi assim com a boneca que andava à corda, da Estrela, e que chamava a atenção das crianças nos "reclames do Plin Plin". Ganhei uma boneca que não andava, mas era do mesmo tamanho da “Andinha”.

Eu cresci. 




E num desses dias memoráveis, tanto quanto as noites de Natal, eu fiz aquela pergunta que não quer calar e fiquei sabendo do grande segredo do Papai Noel. Um segredo tão sublime, tão grandioso como a sua bondade. E tão..., tão... inimaginável para as crianças...

Mas, o Bom Velhinho continuou passando e, prova disso que já aos 14 anos, eu escrevi um bilhete e coloquei no sapato: “Papai Noel, este ano eu quero uma calça comprida vermelha. Mas, se quiser deixar uma nota de 50 cruzeiros (acho que essa era moeda na época), vou ficar feliz”. E lá estava o meu presente, no dia 25, acompanhado ainda de chocolates. Figura ímpar este Papai Noel, não é verdade? Papai Noel que alimentou meus sonhos e povoou meu imaginário infantil. 



Hoje, penso, que se eu fosse comparar Papai Noel a algum ser humano, este seria o meu pai, hoje com 88 anos. Meu pai que, dentro de suas possibilidades financeiras e de conhecimento, nunca mediu esforços para manter as tradições, preservar a família, transformar os sonhos de seus filhos em realidade só para ver a felicidade estampada em seus rostos, independentes da idade, atitude compartilhada com minha mãe. A eles que dedico o post de hoje.





Um excelente Natal para você. E nunca deixe de acreditar nos seus sonhos. 



Um comentário:

  1. Nossos Natais sempre foram maravilhosos. E continua sendo.
    Hõ, hô, hô! Feliz Natal!

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Obrigada pela visita.