Eu fico preta





"Eu fico preta" - Esta frase eu ouvi, repetidas vezes, de uma senhora racista, em 2013 e 318 anos depois da morte de Zumbi dos Palmares, em 20 de novembro de 1695, líder negro que resistiu por mais de 16 anos à subjugação dos brancos portugueses. A senhora irada, falava de forma pejorativa e sequer percebia a minha repulsa diante do eu que ouvia.



Tudo na nécessaire


Levando em consideração o heroísmo do povo africano em viver numa terra desconhecida e sobreviver ao destrato, pensei em quantas vezes eu fico preta e cheguei à conclusão que:

Eu fico preta quando me encho de coragem para reivindicar meus direitos.

Eu fico preta quando sou tocada de humildade, como os escravos, e torno-me flexível para driblar as situações difíceis e conviver com várias pessoas.

Eu fico preta quando luto, como os negros, para preservar minhas tradições e respeitar minha herança cultural.

Eu fico preta quando me curvo, sem perder a ombridade e  sem manchar meu caráter, mas apenas para obedecer aquilo que não posso mudar - no momento.

Eu fico preta quando me sinto amada e protegida pelos velhos, sábios negros, e revivo suas cantorias nas noites de luar.

Eu fico preta quando sou contagiada pelos sons de tambores e atabaques e meu corpo vibra num gingado alegre que só brasileiros podem entender.

Eu fico preta quando me delicio com cuscuz, tapioca, acarajé, munguzá, vatapá, inhame, macaxeira e feijoada.

Eu fico preta quando tomo chás de plantas medicinais que acalmam e aliviam minhas mazelas materiais e espirituais.

Eu fico preta quando deixo meu corpo livre por vestir tecidos de algodão e chita.

Eu fico preta quando deixo que meus pés descalços tocarem o solo para receberem da mãe terra as energias positivas.

Eu fico preta quando acredito que todos nós somos iguais, e que as diferenças entre raças são nascidas no terreno fértil da ignorância e alimentam preconceitos que afastam, maltratam e matam.

São tantos os momentos em que eu fico preta. E todos eles com tanto orgulho porque tenho em minhas veias o sangue bravo e heroico do povo africano. 

Eu reverencio o Dia da Consciência Negra










2 comentários:

  1. Eu não só fiquei "Preto", mas também ainda mais seu fã. Texto maravilhoso! Amei! Descrição perfeita da saga negra. Salve Zumbi dos Palmares!

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