Quem faz a diferença




Dentro do carro parado num engarrafamento, numa das vias principais da minha cidade, eu fiquei observando (penso que como os demais motoristas) o trabalho de um pedreiro finalizando a reforma da fachada de um edifício.  Sem ajudante, ele passava a argamassa, com auxílio de uma espátula, várias vezes entre os mesmos espaços da cerâmica. Depois, afastava-se e observava. Em seguida, voltava e retocava. O espaço de tempo que fiquei parada (e foi grande) vi o pedreiro fazer este gesto muitas vezes, como se estivesse pintando um quadro. Ele primava pela estética do seu trabalho e isso faz a diferença.

Tivemos um marceneiro, por anos a fio, que fez vários móveis para nossa casa, a maioria ainda em uso. Um dia, trabalhando em um deles já num final de tarde, ele disse que voltaria no dia seguinte para finalizá-lo, o que me levou a dizer que pra mim o móvel já estava pronto.  O marceneiro contrapôs afirmando “Não está pronto, porque eu ainda não fotografei”. Questionado, ele explicou que só considerava um trabalho finalizado quando fazia um acabamento excelente e digno de uma foto. Obviamente,  ao longo dos anos, ele construiu seu portfólio e fez outros clientes, alguns indicados por nós. Fazer bem feito deveria ser meta de todos, mas infelizmente não é. Muitos profissionais não prestam atenção aos detalhes,  ao acabamento, a finalização e não perseguem o perfeito, mesmo sabendo que ele não existe (?). Ser perfeccionista é pejorativo.

Dia de faxina pra mim é um estresse. Incrível, mas não deveria ser porque contratamos, pelo preço solicitado, um profissional para limpar e higienizar a casa. A última vez que perguntei para faxineira se ela havia limpado os moveis, retirando os objetos, ela respondeu que não e perguntou se eu queria que fizesse isso. Se você está pensando qual foi a minha resposta, juro que procurei toda a paciência que eu não tenho, ou melhor nunca tive, e disse-lhe: "Sim, eu prefiro que você limpe tudo retirando os objetos". Se por um lado, a faxineira anterior montou sua cozinha, levando quase todas as minhas toalhinhas de armários, algumas de estimação e pintados à mão por minha mãe, a atual, ao menos, é de confiança. Portanto, como dizer a ela que faxina é o mesmo que limpar e higienizar todos os cantinhos da casa (?).

Pensar nos detalhes faz diferença. Comprometer-se é imprescindível, e vem sempre acompanhado de uma boa dose de responsabilidade.

Uma costureira que faz a roupa sem pensar na satisfação do cliente, ficará reduzida a uma pobre artesã que só emenda pedaços de tecidos.

Um médico que não dar atenção devida às queixas do paciente, dirimindo suas dúvidas e orientando nas escolhas do tratamento adequado (se necessário) ou informando sobre as medidas preventivas, não é médico, mas um abatedor de carne e espírito humano porque, aos poucos, ele prejudicará outrem no seu bem mais precioso - a saúde, podendo ainda minguar esperanças e até matar.  

Um advogado que não “veste a camisa” do cliente, abraçando sua causa, não passa de usurpador da confiança alheia.

Um jardineiro que apenas arranca raízes do solo, poda caule e flores murchas, mas não tem carinho, será pouco provável que tenha consciência que é um cultivador de vida.

Um professor que repassa apenas o programa de disciplina, cumprindo o seu horário, mas não tem compromisso com o aluno - seus sonhos e objetivos,  será, fora de sala de aula, apenas um vaso desprovido de conteúdo, e suas palavras jamais atravessarão a barreira do tempo e do espaço.


E existem aqueles profissionais que, de tão comprometido com a causa, tem a sua vida sacrificada como Thiago Faria de Godoy Magalhães (nome de casado), que partiu precocemente, ontem. Thiago era aquela pessoa de sorriso largo, alegria contagiante, abraço forte. Simples e sonhador. Ele sonhou em ser promotor de justiça e repassava a todos sua ansiedade em cada etapa do extenso processo seletivo. Como não vibrarmos com sua aprovação? Logo ele que compartilhava conhecimento, não tinha medo de ensinar e até de preparar seus concorrentes. Thiago entrou numa sala de aula, como professor, antes mesmo de ser promotor. E como promotor, não deixou de lecionar. Agora ele se foi, talvez para aquele lugar onde seu trabalho seja mais compreendido e onde só os justos podem habitar.  Segue em paz, Thiago. Ficaremos com a saudade.






Um comentário:

Obrigada pela visita.