Doe, mas com orgulho



http://noticias.band.uol.com.br/cidades/rs/noticia/?id=100000540653


Fui fazer uma arrumação nos livros de minha casa que, apesar de muitos, não podem ser considerados como uma biblioteca particular (porque o conceito deste espaço é muito mais amplo), e fiquei pensando o quanto a maioria das pessoas ainda tem preconceito com o seu descarte.  Jogar um livro no lixo soa como pecado, onde o algoz deverá queimar, eternamente, nas chamas de uma fogueira feita, de preferência, com papéis para revelar a culpa de sua consciência. Jogar um livro no lixo pode parecer ignorância de quem o detinha, como se não existisse literatura ruim em todas as áreas do conhecimento, além da obsolescência. São esses livros que jamais doaríamos a um amigo, sequer indicaríamos para qualquer pessoa a sua leitura, exceto para contribuir com sua visão crítica do que se considera lixo ou não. Jogar um livro no lixo, ainda pode não ser a solução para se livrar de uma obra e, sim, doá-lo à reciclagem. Existem instituições como o Hospital do Câncer, aqui em Recife, que dependendo da quantidade vai até à residência buscar todo o material impresso para transformá-lo em recursos financeiros que possibilitarão os tratamentos dos pacientes do Sistema Único de Saúde – SUS.


Doar e não incomodar. Esta, sim, deveria ser a solução para as pessoas que desejam se livrar de livros e revistas. Mas, pelo contrário, não é sempre isso que acontece, porque elas transferem essa “culpa” para as bibliotecas, enchendo caixas e mais caixas (algumas ainda com teias de aranhas) e entregando as instituições que nem sempre estão interessadas na doação, mas se sentem “obrigadas” a aceitarem, seja por determinação superior ou mesmo para não espantar o leitor. Não sabem os doadores, ou sabem, que muitos desses livros e periódicos irão ocupar, por muito tempo, os porões das bibliotecas, onde a falta de limpeza e climatização (ainda uma realidade inexorável para a maioria das bibliotecas no Brasil) irão oferecer às traças um dos seus alimentos mais preciosos – a celulose.

Incomoda receber o que não tem serventia. E neste aspecto, vale ressaltar, que muitas publicações têm prazo de validade e se tornam obsoletas. Contudo, dependendo da área do conhecimento, da necessidade da pesquisa histórica ou do valor sentimental, elas podem continuar habitando as estantes de uma residência. Existe ainda outro lado para quem doa, às bibliotecas, essas publicações: a vaidade exposta que só engana os leigos, para quem a doação é um ato do louvor porque se acredita que haverá uma cooperação que permitirá o aumento do acervo bibliográfico das instituições. Afinal, de todas as bibliotecas, que você conhece, aponte quais estão com o acervo, satisfatoriamente, atualizados. Difícil tarefa, não é verdade? Porque constituir ou construir acervo é um investimento alto que produz benefícios, jamais oferecerá retornos financeiros, ou seja, lucros.


http://viagematemagica.blogspot.com.br/2013/06/ai-pessoal-qual-sua-relacao-com-leitura.html


Se você não se enquadra neste perfil, de querer livrar-se da culpa para não ser consumido no fogo do inferno ou de ter seu nome exaltado pela doação de obras por metro quadrado, mas tem apenas o desejo de compartilhar publicações que são verdadeiros repositórios de informações, doe com orgulho. Algumas dessas doações se concretizam pela falta de espaço físico nas residências, hoje uma realidade bem presente; pela falta de utilização da família como, por exemplo, os livros didáticos ou infantis que tiveram sua importância numa determinada época; ou simplesmente pelo prazer de compartilhar com outras pessoas o privilégio do conhecimento que pode está nos romances e na literatura histórica e específica de determinada área. 

Para quem doa, dentro deste contexto, o orgulho deverá estufar o peito porque o doador estará, verdadeiramente, contribuindo para melhorar o acervo de alguma instituição, além de estar incentivando, iniciando e formando outros leitores. E neste aspecto, é disso que nosso país ainda precisa: leitores. Pois só com a educação e leitura é possível se formar cidadãos conscientes de seus direitos e deveres, livres para discernir e reivindicar que as conquistas econômicas de seu país sejam transformadas, constantemente, em políticas públicas que ofereçam, efetivamente, melhorias nas condições de vida da população.



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