Uma casa muito engraçada...


Quem não gosta de sentar perto da janela dentro de um ônibus, avião ou num lugar privilegiado só para contemplar a paisagem, a vida, o mundo que passa lá fora e, quem sabe, dar asas aos sonhos e a imaginação?

Era isso que eu fazia quando era adolescente e ia de ônibus para o colégio. Adorava sentar à janela para ver as pessoas e sentir o ventinho batendo no rosto, de preferência à sombra.


Entre os vários pontos que o ônibus parava tinha um, na volta do colégio, que eu mais gostava porque havia uma casinha, tão fofa que parecia ser de boneca. Sua fachada era estreita, mas decorada com azulejos até a altura de meia parede. As grades eram pintadas de azul, às vezes brancas, e só tinha uma janela frontal, mas com jardineira contornada também por azulejos decorados. Entre o portão de pedestre até o terraço, havia dois degraus tornando o piso da casa bem mais alto do que à rua. E na garagem tinha... um fusquinha azul. A casa incitava imaginar que ela tinha sido feita para não esquecermos a música de Zé Rodrigues, imortalizada pela cantora Elis Regina “[...] Eu quero uma casa no campo onde eu possa ficar no tamanho da paz. E tenha somente a certeza dos limites do corpo e nada mais [...].”

Apesar de não ser no campo, aquela casinha transmitia organização, paz e família. Era tão linda! Digo era porque, na última sexta-feira, fiz um desses caminhos que o tempo leva pra bem longe da atual rotina e passei pela casa. Não resisti em, mesmo dirigindo, olhar bem rápido, mas o suficiente para vê-la depredada. Na fachada quanto no muro faltavam azulejos, a pintura estava descascada asseverando que a ação do tempo foi também implacável. Fiquei me perguntando se os moradores (jamais vistos por mim) eram os mesmos e estavam envelhecidos e doentes o suficiente para não terem ânimo em cuidar da casa. Pensei se eles tinham morrido e a casa havia sido vendida para uma pessoa desleixada. Ou se os filhos cresceram, casaram e eles se mudaram para outro bairro, talvez para um apartamento, afinal de contas não é isso que algumas vezes acontece – a necessidade de um espaço menor.  Na verdade, mesmo que vários motivos tenham existido, o que justifica aquela deterioração foi à falta de manutenção.



Fiquei pensando como a vida reclama manutenção em toda a sua dimensão. E manter, pode ser traduzido como cuidar para conservar, para preservar. E preservar exige investimentos que, em relação à casa é financeiro. Mas, nem sempre são esses investimentos que solucionam um problema. Algumas vezes precisamos investir na atitude, na renúncia, no comprometimento, na responsabilidade, na afeição e amor para manter o corpo, a alma, o espírito, a família, os amigos e qualquer tipo de relacionamento, a vida e a paz. A manutenção está para a vida, como o respirar para o corpo. E se não respiramos bem, o corpo sofrerá.

Mas, se a falta de manutenção depreda o patrimônio material como uma casa e até o mais alto dos edifícios, a negligência com o corpo deixa cicatrizes, amputações e estragos que, mesmo remediada, jamais conferirá ao vaso físico a saúde de antes. E o que falar das decepções, tristezas, angústias, mágoas e todas as outras mazelas que arruínam a alma e a mente? Elas produzem amargura, pessimismo, azedume, falta de perdão e levam à solidão. Da mesma maneira que uma casa saqueada em seus cômodos afasta moradores, as pessoas aflitas, angustiadas, depressivas também afugentam as companhias e pares. E falando em companheirismo, nada melhor do que anotar que, por maiores que sejam as dificuldades no relacionamento entre casais de qualquer idade, a manutenção diária se dá por atenção ao outro e não, necessariamente, só por afagos e carícias.
Imagens capturadas na internet.


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