A vez da simplicidade



Tratamento sob foto retirada da internet.


Era por volta do ano 2002 ou 2003. Minha filha era pequena, e um sábado eu estava de plantão na empresa de comunicação em que trabalho, quando tive que levá-la porque minha secretária estava de folga e meu filho já tinha ficado com minha mãe. Quando foi chegando próximo ao meio-dia, vi no pátio aquele homem com olhar distante, contemplando a paisagem porque estava aguardando ser chamado para dar uma entrevista. Disse para minha filha: - Sabe quem é aquele? Aquele ali é Dominguinhos.

Ela, pela pouca idade, não poderia imaginar a dimensão de minhas palavras. Mas, para mim, dizer que aquele era Dominguinhos, era o mesmo que dizer aquele ali é o Grande Mestre da Sanfona, é o Herdeiro de Luiz Gonzaga, o Grande Maestro da Orquestra de Sanfoneiros Brasileiros, O Orgulho do Povo Nordestino. Fui me aproximando ao cantor e compositor para, como profissional, colher alguns dados biográficos necessários a atualização de seu cadastro no nosso banco de dados. E ao notar minha aproximação, ele já estava com o sorriso aberto, tão característico dos sertanejos que vêem na vida uma graça de Deus, sem exigir-lhe maiores benesses. Dominguinhos não só contou trechos de sua vida como se prontificou em me acompanhar até à estação de trabalho. Enquanto eu digitava, ele falava sua história. Entre a profissional e fã, eu não poderia deixar de me surpreender com tamanha simplicidade. Ele me agradeceu. Mas, o agradecimento Caro Dominguinhos, é  meu e de todo povo brasileiro, dos nordestinos que foram tão bem representados em sua música.




Simplicidade está para os corações bons, e para quem já adquiriu sabedoria com a vida. Não se resume as vestimentas, paramentos, bens ou qualquer outra coisa palpável e material. Simplicidade está no espírito, na alma. Com o chapéu de couro, às vezes um gibão representando o vaqueiro, e munido de uma sanfona, Dominguinhos não só se destacou pela sua produção musical, mas pelo coração. Então, por mais adjetivos que possamos atribuir-lhe, o maior poderia ser Simplicidade, como conclui seus companheiros de estrada. Este, certamente, lhe levou às portas do céu ou de esferas espirituais superiores.  

Simplicidade também está nas atitudes do Papa Francisco. Não no que ele usa, ou no seu cardápio tão divulgado pela imprensa, mas nos gestos com o povo, no sorriso de alegria por está plantando a boa semente entre os jovens cristãos, no encontro com o seu rebanho, na evidencia que é passageiro na vida, assim como todos nós. E quem tem a consciência que está na Terra de passagem, que não é maior entre os homens, mas apenas tem compromissos diferenciados que completam a grande família que é a humanidade, não será soberbo, nem se lançará ao pedestal, mesmo sabendo que o mundo é tão desigual. Que possamos, então, aprender com o Papa Francisco, que reuniu representantes de várias religiões em torno da esperança de uma Igreja renovada para acompanhar a revolução social, dos costumes e tradições.




E depois da triste partida, ocorrida na semana passada, os fãs de Dominguinhos em todos os recantos, podem dizer:

- Dominguinhos, cante. Com sua destreza na sanfona, cante para aqueles que também já se foram. Continue mostrando o seu talento, mas agora onde não há finitude, onde seu sorriso não seja retirado dos lábios por causa da dor, onde sua lágrima seja apenas de agradecimento pela paz e onde seu talento jamais irá silenciar.

Bom início de semana para você.




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