Tristeza e saudade



Possa o leitor me ouvir e discordar: vou dizer da tristeza e da saudade.



Tristeza é a ruptura da alegria. Saudade é um elo preso ao passado. Logo, a tristeza é uma quebra e a saudade uma ligação. A tristeza é a dor que sempre dói, a saudade uma dor quase sem dor. Talvez, para melhor situá-las, fosse possível comparar a tristeza à lembrança e a saudade à recordação.

Quero dizer – via Schopenhauer – que a lembrança funciona nos três tempos – no passado, no presente e no futuro: posso me lembrar do que fiz ontem, do que faço hoje e do que pretendo fazer amanhã. Porém, quando se trata da recordação, todo tempo é passado. Aliás, o termo recordar – significa passar de novo pelo coração.

A saudade é um olhar só para trás – golpe de vista no retrovisor. A tristeza é inquieta, possui algo do vento e do fogo. A saudade, não. Ela tem alguma da terra fixa e da água parada. O hai-kai mais famoso de Bashô, em uma das suas traduções, diz: “Sobre o tanque morto / um ruído de rã / submergindo”. Octavio Paz analisa “o tanque morto e seu silêncio (...) o salto da rã que rompe a quietud (...) e a água que se expande em círculos concêntricos”.



Eis como funciona a saudade: salta uma rã no tanque do passado, ele se acorda sob o seu rúido e vai se abrindo em círculos concêntricos. Com respeito à tristeza, haveria um redemoinho, um hélice, um cata-vento circulando no tanque. Dela saltam todas as rãs, de uma só vez, nadam todos os peixes e cantam todas as sereias.

Saudade é uma coisa que se perde e se encontra depois – novamente se perde e reencontra. Tristeza não se perde, só se encontra, nunca repousa, sempre ela está nova e, quando fica velha, é já saudade.



Daí que o belo mito de Narciso se vê no espelho da água e não move a água. Não sendo nem tristeza, nem saudade, Narciso é a imagem toda do presente: vive no interregno e sobrevive no instante. Só vê. Só olha. Só se enxerga só.  Por isso não ouve a voz da ninfa Eco que, de tranto chamá-lo inutilmente, se transforma em rochedo – pedra insonora (pois a voz do rochedo é o som do mar). As sereias de Homero (que eram pássaros e não peixes) também foram transformadas em rochedos = as sirenusas.  Sempre a voz em silêncio é transformada.

É possível evitar a saudade, ora anestesiando a sensibilidade, da leve cócega da sua perna, ora desviando os olhos do seu fantasma: “Êpa, aqui, não, agora, não, depois!”

A tristeza é inamovível, é irresistível – como afirmou Castro Alves: “E, quando uma tristeza irresistível/ Mais fundo cava-me um abismo n’alma”. O título do poema (de onde estes dois versos) é Horas de saudade. Para o poeta tudo era saudade: a almofada, o perfume, o piano, a tarde. Eis que, de súbito, irrompe algo que não é saudade, porém tristeza dentro da saudade. E a tristeza quebra – da irmã saudade – aquele ritmo sonolento, nostálgico, melancólico, como outra voz que cava o próprio abismo.




Embora eu já tenha dito, alguma vez, que a minha avó materna – Idília – imaginava o passado e recordava o futuro, essa inversão dos tempos não é tão irreal como parece. Não se trata do déjà-vu – “da ilusão do já visto – mas da faculdade de sonhar o passado e lembrar o futuro. Posso, hoje, querer ser isso ou aquilo amanhã, e viver isso e recordar aquilo, que penso que serei.

Se já não é o mallarmaico – “Eu me via me ver” – é a outra mesma expressão: Eu me vejo me ver A imaginação está sendo transferida como uma lembrança, não desfocada, mas enfocada com outra luz.



O mesmo quanto ao passado. Se recordo que fui o que não fui, imagino que fui o que poderia ou gostaria de ter sido. Isso pode acontecer por um lapso da memória, ou por uma fuga, por um engano, ou um disfarce de mim mesmo. Diz Joseph Brodsky: “Devido a sua plenitude, o futuro é pura propaganda. Como a maconha”. Contudo, com respeito à plenitude, não só o futuro, mas também o passado é pura propaganda.  

Não posso dizer o mesmo do presente, porque ele não possui plenitude, não é um tempo inteiro: é o fragmento do hoje, que já passa ao ontem e já avança no amanhã. Com relação à rapidez, o presente não existe. Com relação à plenitude, só existe a eternidade. Almeida Garrett colocou uma espécie de sabor na saudade: “Gosto amargo de infelizes / delicioso pungir de acerbo espinho”. Talvez porque a saudade possa melhor ser sentida pela boca, enquanto a tristeza é mais sentida sob e sobre os olhos.

O texto é do poeta pernambucano Marcus Accioly.

Quem nunca sentiu tristeza e saudade?





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