Uma nova escola






Texto de José Sérgio Fonseca de Carvalho
Doutor em Filosofia da Educação e pesquisador
convidado da Universidade de Paris.

Ilusões perdidas 

Acordávamos cedo, todos os quatro irmãos, e seguíamos juntos a caminho da escola. Minha mãe, que sempre acordava antes de todos, insistia em deixar o volume do rádio alto e o locutor nos informava, a cada minuto, a  hora certa.

Invariavelmente seguido de uma vinheta que nos alertava que deveríamos ir embora, pois já era hora. Uma rima que me irritava, pois a tudo imprimia um ar de urgência e em todos causava a sensação de um atraso crônico. Naquela manhã rompi com meu silêncio matinal e com minha resignação costumeira: “Por que tenho de ir para a escola?” A pergunta, disparada à queima-roupa, fora dirigida ao meu pai.

Ele sequer interrompeu seus afazeres e me respondeu com a displicência daqueles que possuem uma certeza inabalável: “para ser alguém na vida”.

Filho de imigrantes analfabetos, a escola tinha sido para ele, o caminho da emancipação pessoal, da liberdade do trabalho manual, da ascensão social e econômica. Era técnico em contabilidade, mas à época isso tinha sido o suficiente para lhe garantir um emprego público em um banco federal e o respeito de seus parentes e amigos.

Naquele bairro distante, povoado por operários e trabalhadores informais, os signos de escolaridade – como a biblioteca pessoal, sua caligrafia esmerada e até a velha máquina de datilografar – lhe conferiam respeito e distinção.

Vereador na década de 60, uma de suas lutas era a expansão do atendimento escolar na região. Acreditava que sua experiência pudesse ser generalizada; uma vez universalizada, a escola seria promotora da igualdade social numa sociedade fundada no mérito individual. Não viveu o suficiente para assistir à derrocada de suas ilusões.

Hoje nos confrontamos com um quadro bem mais complexo. Que pai poderia garantir que o sacrifício de todas as manhãs seria recompensado por um emprego estável, pela melhoria de suas condições de vida? Se a escola permanece sendo condição necessária para o êxito econômico, ela já não é mais suficiente, como o era há quatro ou cinco décadas.

Ao aumentarmos a escolaridade média da população, aumentamos as exigências mínimas para qualquer emprego, e somente poucas intituições de ensino superior, em geral de difícil acesso, ainda conferem algum tipo de distinção social.

Sociedades como a espanhola, que conheceram uma ampla expansão das oportunidades escolares ao lado de significativas transformações qualitativas de seus currículos, encontram-se, hoje, numa profunda crise econômica e social. É como se uma das maiores certezas do pensamento social e político do século 20 ruíssem impiedosamente ditante de nossos olhos.

Ainda assim, parece que insistimos em negar essa experiência que temos vividos nas últimas décadas. Refugiámo-nos na denúncia de uma abstrata queda de qualidade para nos assegurar de que as ilusões não estão definitivamente perdidas; de que a escola poderá ainda vir a cumprir o mesmo papel social. Responsabilizamos os mais jovens por não corresponderem aos sonhos e planos que para eles traçamos décadas atrás.

Melhor faríamos se tivéssemos a coragem de enfrentar o desafio de pensar novos sentidos para a experiência escolar.

Que significado se pode atribuir a uma escola que já não mais oferece garantia de empregabilidade e de ascensão socioeconômica? Como justificar sua existência e os sacrifícios que ela exige?

Nos momentos de crise, a coragem de se perguntar é sempre fecunda do que a pressa em repetir certezas pouco examinadas. Como bem sabia Sócrates. [grifo nosso]




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