Uma semente para a vida






Uma semente de mamão caiu dentro das frutas em que eu cortava, neste carnaval, para fazer uma salada – alimentação bastante saudável. Catar uma semente entre tantos pedaços de frutas não é muito fácil, mas insisti. Logo veio à lembrança da infância quando minha mãe dizia que se engolíssemos as sementes de frutas, um pé da fruta nascia na nossa barriga. Eu ficava imaginando como seria quando começassem as folhagens, se elas iriam sair pelos ouvidos, nariz, boca etc.

E completando ainda esse imaginário infantil, meu pai sempre mostrava a gravura, contida numa enciclopédia (lembro-me bem, era de capa vermelha), de um tamanduá, animal que nos transformaríamos se não escovássemos os dentes todos os dias. Obviamente, eu tinha mais medo da árvore dentro da barriga do que virar um tamanduá, não que esse animal devesse ser algo agradável, mas isso iria depender muito mais de mim; enquanto engolir sementes, às vezes, podia ocorrer de forma acidental. Mas, a gente sabe também que a maioria dos acidentes acontece por falta de atenção, imprudência mesmo. A intenção deles era a melhor possível.

Hoje, fico rindo das coisas exageradas e fictícias que meus pais diziam, mas que se tornavam limitadores para as ações erradas. Não havia muitos diálogos e explicações, nem orientações baseadas em teorias psicológicas, mas existiam conceitos do que era certo e errado, do que podíamos fazer ou não fazer, do que era lícito e ilícito, do que formava o caráter do homem de bem ou não. E todos nós queríamos ser gente. E ser gente implicava na obediência às normas e regras, no respeito, no ser e não ter. Nossos pais eram gente, eles são gente. Ser como eles e melhores ainda, era o desejo da maioria dos filhos.

Na década de 70, não tínhamos a internet, nem televisão que ocupassem tanto o nosso tempo e estabelecessem padrões de comportamento e de consumo, importados de fora das quatro paredes, que disputassem com nossos pais as suas orientações e autoridade. Eles eram os nossos modelos. Eles eram tão soberanos nessa tarefa que ai de quem os desrespeitassem. Quem era doido? Um olhar, um ham ham com a garganta eram mais do que suficientes para sabermos que não estávamos agindo de acordo com a cartilha.

E por falar em cartilha, na escola (onde a educação ainda não tinha virado negócio) encontrávamos professores que continuavam a educação do lar. Lar – como essa palavra é tão pouco dita nos últimos tempos. Ter um lar é o mesmo que dizer ter um abrigo, um aconchego, um lugar onde só as paredes dividem porque o restante é nosso, é da família, é dos filhos.

Voltando à escola, lá íamos todos nós fardados, impecavelmente. Atravessávamos o portão de entrada e logo formávamos uma fila onde a estatura determinava qual o lugar que iríamos ocupar e esperar a nossa vez de entrar em sala de aula. E ai também de quem corresse ou ensaiasse dar um jeitinho para passar na frente do outro, porque receberia um castigo, na certa, dado pelos professores que lá estavam para fazer com que a disciplina fosse respeitada. E respeito era o que não faltava na hora do Pai Nosso e do Hino Nacional entoados por todos, do diretor aos alunos. Amor a Deus, a pátria e a nós mesmos, ao nosso futuro porque estávamos nos transformando em cidadãos.

Não estamos aqui discutindo ideologias, nem de qual corrente política governava o país naquela época, nem a censura em relação à liberdade de expressão. Estamos falando de um modelo de educação antiga, mas não falida como vemos alguns atualmente - onde tudo é permitido (desde que não incomode os pais), e que fez muitos cidadãos que somos hoje. 

 



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