O amor como mico





O amor não é um mico-leão-dourado
Texto de Marina Colasanti

O amor mudou, me dizem com frequência. E quando pergunto mudou como, me respondem que as pessoas estão amando menos, não estão querendo amar.

Nestes tempos de extinção, o amor parece ter futuro tão improvável quanto o mico-leão-dourado. Mas todos a quem indago me garantem que já amaram, e muito. Os que se negam ao amor são sempre os outros.




Olho ao redor. O coração está na camiseta do boy, na xícara de café, na tatuagem da gatinha, no adesivo do carro, na capa do caderno escolar, na divulgação da grande cidade. Não somos uma sociedade de cardiologistas, somos uma sociedade de apaixonados pelo amor. Amar nunca esteve tão em moda.

E talvez exatamente porque o amamos tanto, o amor disponível parece insuficiente.



Negar-se ao amor não é nenhuma novidade. Sempre houve quem quisesse amar e quem preferisse ficar de fora. Mas durante séculos o amor pareceu incontrolável demais, e a mesma sociedade que o louvava em canções e versos só lhe abria fresta apertada na porta do cotidiano. A vida era então bem mais fácil para os que não queria tirar o colete salva-vidas. Hoje, nesse nosso festival de love, os que não querem amar destacam-se como ovelhas negras, negar-se ao amor tornou-se uma espécie de agressão social. Quem não ama está subtraindo parceiro a quem gostaria de amar.


             E, no entanto, parece tão fácil apaixonar-se. 

  
Poetas e cientistas concordam, basta olhar.


 Dante, o bardo, vinha andando desprevenido em sua Florença natal quando: “... aos meus olhos apareceu pela primeira vez a gloriosa senhora da minha mente, a qual foi chamada por muitos Beatriz (...) o espírito da vida, o qual mora na secretíssima câmara do coração, começou a tremer tão forte que se percebia nas mínimas pulsações terrivelmente...”.




Começamos a namorar com o olhar, ou até mesmo com o olfato, quando as moléculas de uma pessoa penetram na outra”, confirma o neuropsiquiatra Boris Cyrulnik. A partir do olhar começa a farra química orquestrada pelo cérebro, que conduzirá à inevitávl ansiedade do desejo.




Tudo é verdade, mas o processo amoroso é mais complexo.

O olhar se pousa em tanta gente o tempo inteiro e, assim mesmo, anos podem passar sem que o espírito da vida ecoe na “secretissíma câmara do coração”. O olhar precisa de algo mais do que encontrar um conjunto de fatores especiais, um pacote fatal. O olhar precisa querer ver.

O amor causa-me horror”, diz Fernando Pessoa em seu poema “Da falência do prazer e do amor”. E explica em belos versos que detesta a própria ideia de abrir seu ser a alguém, de entregar-se e permitir que alguém lhe perscrute os recatos, de viver a intimidade, “Pensar em dizer amo-te (...) só isso, me angustia...”.




Essa angústia, esse negar-se ao amor não são anomalia; são eles também, parte do amor. Só quem reconhece a força avassaladora do amor, sua capacidade de virar uma vida de ponta-cabeça, pode ter-lhe tamanho medo. E mesmo aquele que não quer amar atrai amores apaixonados, que buscam afirmação na derrubada de sua fortaleza.




O amor é tudo, é querer e não querer. Quanto mais se exige do amor – como estamos exigindo agora -, tanto mais se acirra a resistência dos que relutam em se entregar. O número dos que não sabem amar não aumentou, de fato, como demonstram as estatísticas de casamentos e de convivência amorosa. Aumentou a medida do amor que se exige. Aqueles que só sabem amar de leve, e que antes eram considerados válidos no mercado amoroso, hoje, com o embandeiramento público e privado do amor, são considerados insuficientes e contabilizados entre os despossuídos de coração.




O amor não é um mico-leão-dourado. Nenhum indicador nos leva a suspeitar sua possível extinção. Seu habitat – corpo, mente e corações humanos – não está ameaçado. Como um mico, talvez, está mudando o pelo, modificando um pouco suas feições para adaptar-se às circunstâncias. Exatamente como vem fazendo desde o início. Pois a respeito do amor só há uma certeza, ele é sempre outro, e sempre o mesmo.

 Imagens do We heart it.


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