Não há adeus







Em agosto último, ligaram informando que eu fosse presenciar a retirada dos ossos e das cinzas de minha madrinha e providenciar a sua guarda em outro local, porque já havia se passado dois anos. Ligações como essa deveriam ser realizadas por profissionais qualificados onde, no minímo, tivessem uma capacitação na área de psicologia, condição que iria ajudar a tratar de um assunto tão delicado. Mas, pelo contrário, tudo é transmitido em números e cifras visando um negócio. Passados os primeiros instantes, onde a realidade acende uma saudade sofrida, comecei a pensar como o tempo é inexorável, mas em nenhum momento, nesses dois anos, eu tinha pensado que minha madrinha estava se desconstruindo e sim, reconstruindo-se em algum lugar, nesse imenso universo, das consequências de uma doença que lhe impõs tanto sofrimento. Em momento algum, pensei na condição da matéria que estaria reduzida às cinzas, ao pó. Então, por que eu haveria de  “guardá-la” numa urna?

Era muito pouco para quem viveu plena e intensamente, e injusto para essa inteligência ser aniquilada. Não!  Meu Pai e também Vosso Pai não permitiria sermos reduzidos ao nada, ao vazio, ao fim. Seria tudo isso tão pequeno perante a imensão dos milagres da natureza que acontecem, todos os dias, diante dos nossos olhos. Seria impossível, para mim, deixá-la "descansar" numa urna. Sim, ela não estava cansada da vida,  muito pelo contrário, ela estava procurando vivê-la. Contudo, o corpo já estava impróprio para as atividades de seu espírito e ela partiu, deixando-nos saudades. Partiu, não morreu, porque continua a sentir, ouvir, falar e vibrar como parte integrante de uma sábia engrenagem divina chamada universo.

“Assusta-me o silêncio eterno destes espaços infinitos.”

Blaise Pascal (Matemático, 1623-1662)





Com todo o respeito para quem pensa de forma diferente, mas tudo se desenhou o oposto do que eu acredito. Para mim estava tão óbvio...  Recuso-me a acreditar que um Pai, com seu imenso amor, reduzisse seu filho ao nada, que o deixasse adormecido quando ele desejava estar acordado, que promovesse a separação quando seu próprio Filho Primogênito pregou a união entre todos. Portanto, não fui venerar o pó, nem o chão, a terra e muito menos providenciar uma lápide tão perecível ao tempo quanto a matéria. Lembrei da frase do Filho que, numa simbiose astral, com o Pai disse “Deixai aos mortos o cuidado de enterrar seus mortos.” Então, preferi celebrar a vida, a continuidade, a infinitude, a eternidade. 

A saudade, guardada no peito, é grandiosa e não iria se contentar com cinzas, mas com a certeza que em algum lugar minha madrinha estará, assim como outros familiares, amigos e pessoas que temos tanta afetividade. Afinal, seria tão injusto cercear a inteligência, acabar com a individualidade, condenar pela eternidade e extinguir a esperança do reencontro. E a alegria desse reencontro só existirá se tivermos as mesmas oportunidades de sermos felizes. Caso contrário, nós que tantos lutamos para eliminar as diferenças aqui na terra, que evoluímos e buscamos a igualdade, iremos retroceder para aceitar a divisão de beatitudes lá no alto, coordenado pelo, nada mais nada menos, justo e misericordioso Pai. E, como tanta misericordia e soberana bondade, que nem em sonho jamais se igualará ao homem, Ele não teria conseguido compreender que, em qualquer época de nossas vidas, é muito... muito difícil dizer adeus para quem amamos.
Até segunda-feira. Beijo no coração.

Imagens capturadas na internet.




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