Não acabou.



Um padrão de comportamento, que se estabeleceu paralelo às conquistas e independência financeira feminina, foi constituir uma família com, no máximo, dois filhos, sobretudo entre aquelas com maior grau de instrução e, portanto, entendimento de que filhos não só representam a perpetuação do clã, mas um alto investimento emocional e financeiro, já que as escolas públicas do nosso país estão muito aquém de oferecer um ensino de qualidade e, as poucas que se sobressaem a essa realidade, consideradas como referências, são disputadíssimas, sendo uma exceção à regra. Mesmo conhecendo o ônus, se é que assim podemos chamar a outra face da moeda,  nada disso tira de nós o prazer e a alegria de sermos pais - e aqui peço licença ao pai, para falar apenas como mãe, papel que desempenharei pela eternidade. Parafraseando o Hino do Flamengo, apesar de não ser carioca, “Uma vez mãe, sempre mãe. Mãe sempre, eu hei de ser. É meu maior prazer vê-los brilhar, seja na terra, seja no mar. Vencer, vencer, vencer! Uma vez mãe, mãe até morrer!” Como acredito numa vida após a morte, serei mãe alhures.


Raphael Felipe e Amanda Carolina


E foi no papel mais importante de minha vida que, na última sexta-feira, assisti a conclusão do Ensino Médio de minha filha caçula. Uma felicidade ímpar, no encerramento de mais um ciclo em nossas vidas, iniciado com o primogênito. Ao mesmo tempo em que assistia a solenidade, era espectadora das películas de um filme que teimava em passar na minha cabeça.

Revivi uma boa parte da trajetória da maternidade dos dois filhos: As noites em claro, onde o sono parecia mais um intruso do que um descanso natural; as gripes e resfriados que exigiam tantos cuidados para que a qualquer momento não virasse uma tuberculose (sim, porque mãe é intensa em tudo). Rememorei as primeiras palavras ditas pelas banguelas mais lindas que já vi em toda minha vida e que foram alvos de ciúme pela ameaça que alguma delas pudesse chamar a empregada de “mamã” (sim, porque mãe tem um arsenal de fuzilamento). Senti novamente toda a ansiedade dos primeiros dias de aula, a dor de ter que deixá-los ali "tão sozinhos e desamparados" nas mãos daquelas que passaram da condição de professoras para tias, talvez para dar um tom de maior aproximação nesse relacionamento:  filhos de outras, compromisso como se fossem das minhas irmãs. Vi novamente as minhas mãos cansadas, no final de cada dia de trabalho, folheando as páginas das agendas escolares para saber qual a atividade para o dia seguinte de cada um deles, e o vasculhar nas mochilas para saber se o material estava todo ali ou se não haviam objetos estranhos (sim, porque mãe é melhor do que qualquer tropa de elite).  






Assistindo minha filha receber a placa de conclusão do Ensino Médio, voltou à memória, os aplausos que ela recebia nas apresentações do balé. Mas, nunca será esquecida a torcida familiar que se organizava, melhor do que a de Gustavo Kuerten nas finais de Roland Garros, para assistir a abertura dos jogos escolares. Mas, era preciso ter fôlego (sim, porque mãe tem que ser resistente) para atender a mudança de preferência de esportes dos atletas da casa. Começaram nadando, depois foram surgindo as aulas de volei, judô, karatê e futsal, até que um dia a ortopedista perguntou “Desta vez onde é a fratura, Raphael?” E alguém já ouviu falar que, em certas ocasiões, carro de mãe se transforma em helicóptero e celular em radar ao primeiro chamado?

Lembrei também dos muitos amiguinhos que dividiram as brincadeiras e algumas de suas mães tão cuidadosas (ou neuróticas) como eu e outras tão, tão... dementes, na minha opinião. Tenho certeza que você conhece alguém assim, sabe como é... elas parecem que estão sempre sob efeito de um lexotan. Revivi tantos e tantos momentos que fazem a maternidade ter emoções que as palavras ainda são incapazes de traduzi-las e, naquela ocasião uma delas significava a sensação de mais um dos deveres cumpridos.



Ter dois filhos, como dita o contexto econômico e social, não tem gostinho de meio- termo, mas de início e fim. Se obedecida a distância regulamentar entre eles, haverá o tempo que um será bebê e o outro engatinhará; que um estará na escola e o outro em casa, um será criança e o outro adolescente; um aguardará Papai Noel e o outro guardará o segredo; um estará na universidade e o outro tentando entrar.  Contudo, em todas as fases deverá haver amizade, companheirismo e sintonia entre eles, sentimentos que os pais terão que ensinar e cultivar.





Fico pensando que, da mesma forma que nos tornamos trabalhadoras e marchamos para conquistarmos o mundo concorrendo com o sexo masculino, numa quase igualdade devido aos limites intrínsecos, nós mulheres fomos incapazes de nos libertarmos do sentimento de culpa que ronda os primeiros anos de vida dos nossos filhos. Neste aspecto, não conseguimos a tão sonhada carta de alforria, a nossa emancipação porque  somos iguais as nossas mães. Somos prisioneiras de um tribunal, de foro íntimo, pior do que a Inquisição na Idade Média. E de tanto amar nossas crias, tornamo-nos fragilizadas e subjugadas por um tribunal que nos perseguirá por anos, até um dia em que compreendemos que ser mãe vai muito mais além do que ser babá,  trocar fraldas, preparar mamadeiras e buscar os filhos na escola. É muito mais do que nos entregarmos aos afazeres domésticos. Ser mãe é ter o dever de educar, guiar, orientar, participar e vivenciar as descobertas, conquistas, dúvidas, incertezas e rebeldias dos filhos. Equivale a dizer que é o pronunciamento da palavra segura, equilibrada, alicerçada na força do exemplo de atitudes que demonstrem retidão de caráter e moral, condições que nos permitirá fazer uso de corretivos comportamentais quando forem necessários. E essa tarefa não se acaba na escola, nem começa com ela, mas inicia-se no primeiro encontro, no primeiro choro, no primeiro beijo, no primeiro abraço, na primeira benção entre mãe (pais) e filhos, jamais, portanto, se concluindo.


2 comentários:

  1. Nossa, quanta emoção! Estavam tudos lindos!!! Só senti falta do Papai. Parabéns Amandinha, Everaldo, Rafa e a Mamuja.
    Acredito que nada se acaba, mas superamos etapas, fases, ciclos.Ao desvendarmos o obscuro "novo" melhoramos nossa forma de pensar e ver o mundo, os outros e a nós mesmos.
    Bjs, Sandra

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  2. O papai, que é muito amado, também ficou super emocionado. Afinal, a conquista é nossa. Mas, como a emoção é uma experiência individual, falei com mãe. Um beijão.

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Obrigada pela visita.