A genialidade que incomodava




Cenas do filme Amadeus, com o ator Tom Hulce interpretando Mozart

As gargalhadas altas chamavam a atenção de todos que estivessem no recinto, numa mistura de alegria, deboche, irreverência,  liberdade e ousadia. Liberdade de criar e compor com a mesma facilidade com que respirava.  Não tinha disciplina, aliás, ela não conjugaria com a genialidade. Assim era Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), compositor austríaco, imortalizado pelo seu talento e retratado, lendariamente, no filme Amadeus (1984, Orion Pictures) e vencedor de oito Oscar. Na época, lembro-me bem que saí do cinema pensativa, porque Mozart tinha sido “assassinado” pela inveja de outro compositor considerado seu melhor amigo – Antonio Salieri. 

Salieri, muito religioso, havia pedido a Deus um talento suficiente para torná-lo conhecido pela Corte europeia, fato que não aconteceu durante toda a sua vida. Contudo, ao conhecer Mozart acreditou que Deus havia lhe traído porque tinha depositado todos os dotes musicais naquele jovem inconsequente e excêntrico.


Cenas do filme Amadeus, com o ator Tom Hulce interpretando Mozart.


Segundo o mestre alagoano e também imortal, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, a admiração é ação ou efeito de admirar; estranheza, espanto, assombro, pasmo. Quando se admira, existe a consideração, o respeito, a estima. O mesmo autor também conceitua, no seu Dicionário da Língua Portuguesa, 5.ed. Editora Positivo, 2010, que a inveja é um desgosto ou pesar pelo bem ou pela felicidade de outrem. É um desejo violento de possuir o bem alheio.

Como a ficção imita a realidade, o compositor Antonio Salieri, sentindo-se fracassado e inferior diante do talento de Mozart, que desde os cinco anos de idade já se apresentava para o público em Viena, primeiro torna-se seu amigo e conselheiro para usufruir da companhia do grande músico. De um sentimento de admiração, Salieri passou a invejar o compositor ao ponto de levá-lo a morte, quando Mozart chega à exaustão física e intelectual para compor um réquiem, um cântico aos mortos, atendendo a um pedido anônimo de um homem que chega na sua casa mascarado e que, na verdade, tratava-se do próprio Salieri disfarçado. Mozart trabalha dias e noites, incentivado por Salieri, na composição desta ópera, agravando seu estado de saúde que já estava muito debilitado. Concluído o réquiem, Mozart morre e seu corpo é enterrado, sem quaisquer honrarias e reconhecimento, numa vala comum. 



Cenas do filme Amadeus, com o ator Tom Hulce interpretando Mozart.


Inveja causa dor, sofrimento e amargura para aqueles que a alimenta. Às vezes, se apresenta sutil e disfarçada; outras vezes feroz e bastante revelada em palavras e gestos. Ambas são destruidoras, quando não prejudicam de forma material, fazem espiritualmente através de vibrações negativas. Nem sempre o invejoso identifica este sentimento, ou se identifica tenta disfarçá-lo porque representa a comprovação de uma sensação de inferioridade diante do invejado. Todavia, o que todos nós deveríamos entender é cada pessoa tem as suas potencialidades, talentos e dons que nos tornam diferentes e necessários, mas ao mesmo tempo, entrelaçados e dependentes uns dos outros, compondo uma grande e magnífica obra universal. 

Banir todo o sentimento de inveja que, porventura, venhamos a ter em relação a outra pessoa é o dever de todos nós que nos intitulamos cristãos. Se pudermos transformar qualquer “pré-ocupação”, que venhamos a ter com a vida do nosso colega, amigo ou companheiro de jornada, em ocupação com a nossa própria vida já estamos avançando muito na estrada do progresso moral. E como dizia o escritor Oscar Wilde, é sempre conveniente lembrar que “Qualquer um pode solidarizar-se com o sofrimento de um amigo; solidarizar-se com o êxito já requer natureza mais nobre”.

Bom semana.

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