Padecer num paraíso?




foto de Eduardo Enomoto


Disse o poeta Coelho Neto (1864-1934) e há quase cem anos, mas ainda reproduzido pela boca de muitas mulheres “ser mãe é padecer num paraíso”, fazendo uma analogia que a maternidade é um misto de alegria e sofrimento, dor e prazer, amor e ódio coabitando-se num paraíso, local que, etimologicamente, deve reinar a perfeita felicidade.

Como a terra está mais para o lado antagônico dessa beatitude, nossas crianças, dotadas de sentimentos tão angelicais, naturalmente crescem e se transformam em adolescentes e adultos expostos a toda sorte de experiências que seu meio social possibilite, algumas delas dolorosas e consideradas verdadeiras tragédias pessoais.







Ter filhos saudáveis, acreditamos ser uma dádiva. Transformá-los em cidadãos íntegros, moralmente, através da educação é uma conquista. Desviá-los de más companhias que poderão levá-los à criminalidade e marginalidade é um desafio, principalmente, na atual conjuntura social.

Porque “Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte Severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia (de fraqueza e de doença é que a morte Severina ataca em qualquer idade...)”, diria o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto diante do quadro de calamidade da seca e pobreza no Sertão, mas que serve tão bem para citar os Severinos que caem vitimados pelas drogas.  Diferentes daqueles Severinos do Sertão, esses estão em todas as classes sociais, sem exceção de sexo, e começam abreviando a vida, primeiro pelo uso das drogas lícitas – o álcool e cigarro, depois avançam para a maconha e cocaína até chegarem ao crack.






Num dos corredores da vida, mais precisamente nos corredores de um dos Poderes Constituídos, onde o piso de granito contrasta fortemente com as sandálias havainas  que nele pisam e local destinado a proteção dos direitos do cidadão, que eu encontrei Severina M.C.S., uma mulher de 61 anos, mãe de 14 filhos, entre os quais dez mortos, um deficiente mental, um viciado e preso, e duas mulheres já casadas. Acompanhada da nora, ela foi pedir a transferência do filho mais velho da Penitenciária Barreto Campelo, em Itamaracá, para um presídio mais próximo de sua residência, o Complexo Penitenciário Professor Aníbal Bruno. Como mãe, estava fazendo apenas esse pedido à Justiça porque não dispunha de dinheiro para custear as passagens de ônibus para visitar o filho, semanalmente.

Dona Severina é uma entre tantas mães que tiveram suas famílias destruídas pelo crack. Segundo um relatório da Comissão de Segurança da Câmara e da Polícia Federal, só no Brasil é consumido, diariamente, quase 1,2 toneladas da droga, movimentando com seu refino e distribuição quase R$ 20 milhões, estimando-se que o total de usuários chegue a 1,2 milhão.








Por influência de colegas, necessidade de prazer ou aumentar a auto-estima, entre outros fatores, é que muitos jovens acabam ingressando no vício. O psiquiatra Pablo Roig, de Brasília, em entrevista para o jornal Folha de São Paulo explicou que a sensação de prazer que o crack proporciona é dez vezes maior do que numa relação sexual. Desta forma, as pessoas costumam consumir várias pedras por dia e... todos os dias. Para manter o vício, algumas cometem roubos, assaltos, latrocínios e chegam ao óbito. De 2006 a 2010, as drogas mataram mais de 40 mil pessoas no país, segundo o Ministério da Saúde.

Foi o caso do outro filho de Dona Severina que foi morto por traficantes, brutalmente. Mas, apesar dos conselhos maternos, ele se rendeu às drogas. Entretanto, sobre Fernando (nome fictício) e que ainda está preso na Barreto Campelo, Dona Severina fala de forma já conformada e diz ser um caso perdido. Mas e os netos, um de 20 e outro de 15 anos? Ambos já consomem crack, no bairro do Ibura, considerado um dos mais violentos da cidade do Recife.





“Eles não estão perdidos. Falei com a diretora do colégio em que eles estudam e o mais novo vai frequentar o reforço escolar à tarde. Eles na escola, não ficarão perambulando pelas ruas”, diz esperançosa a avó Severina. Mas, depois complementa, com ceticismo “Tem gente que leva a droga para vender dentro do colégio. Todos sabem, mas não fazem nada”, referindo-se à polícia.

Medo e impotência são os sentimentos que invadem qualquer cidadão diante de um quadro tão devastador que as drogas provocam. Apesar de o governo federal ter lançado no final do ano passado um pacote de medidas para prevenir, repreender e tratar os dependentes químicos através de seus centros de ressocialização.





Qual o conselho que uma mãe, como Dona Severina pode dar às mães que estão tentando livrar seus filhos das drogas?  Ela respondeu: “Dominem seus filhos. Dêem limites e conselhos. Procure saber quem são seus amigos. Ore”.

Perguntei para um jovem, hoje com 27 anos e dizendo que há 7 está sob abstinência do crack, mas que continua ainda sob tratamento terapêutico compulsório e sob a tutela da Justiça, qual o papel de sua mãe no tratamento? Rapidamente e com alegria nos olhos, respondeu “Oxé, minha mãe... minha mãe foi tudo. No dia em que eu estava quase enlouquecendo porque não tinha o crack, disse para minha mãe que ia sair de casa e não sabia se voltaria. Ela pegou umas cordas, me amarrou e procurou ajuda no CAPS.”

B.D.M. se referiu aos Centros de Atenção Psicossocial que acolhem os usuários de drogas, oferecem tratamento clínico e tentam reinseri-los na sociedade.

E qual o conselho, B.D.M., que você daria para uma mãe que tem o filho ainda entregue às drogas, ao vício? “Nunca desista dele”, respondeu.
 

Atualização em 16.05.2012: Dados divulgados hoje pelo Diário de Pernambuco cita  "Um panorama do atendimento prestado a usuários de crack em 497 cidades brasileiras mostrou que apenas 11% deles têm acesso à internação, 45% participam de outras modalidades de tratamento, 18% estão em acompanhamento depois de desintoxicados, 17% abandonaram a reabilitação e 1% morreu. O índice de sucesso está distribuído entre os 2,5% classificados como “curados” e os 3,9% em fase mais avançada, designada como processo de reinserção social. Quase 40% dos pacientes têm entre 20 e 29 anos, seguidos pela faixa dos 15 aos 19."

2 comentários:

  1. O erro de muitas mães é pensar que a criança não entende nada.Deixam pra dar limites quando o filho já está muito desobediente e agressivo. Devido a minha profissão, hoje, escuto muitas mães falarem que não podem mais com uma criança de 6/7 anos. Acho isso ridículo. Quando essa criança chega na adolescência, termina se envolvendo com drogas.

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    1. Concordo com você. A educação começa no berço e jamais termina. Obrigada pelo seu comentário.

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