A hora do reencontro




Quem gostaríamos de reencontrar um dia? 

Alguém que dedicamos nosso afeto, nosso carinho, nossa atenção, o nosso amor.
Alguém que, por algum motivo, foi arrancado de nosso convívio para viver em outras esferas. Quem sabe, nas nuvens?
Alguém para continuar o que foi partido, arrancado... desfeito.
Alguém que nos proporcionou prazer, harmonia, alegrias e paz.
Alguém que pudéssemos dividir o que não deu tempo...
Alguém esperado, desejado e amado.
Alguém que “somou” em nossas vidas.
Alguém que foi a nossa alma gêmea, a família... um filho.







“Foi um reencontro”. Esta é a definição dada por M.G.A.F. ao descrever, ainda com forte emoção, o que sentiu ao ver a criança que estava no berço e que tinha sido destinada a ser seu filho.

“Desde os meus 18 anos, eu fiquei sabendo que não poderia conceber, biologicamente, uma criança. Mas, esta mesma certeza eu tinha também que um dia seria mãe.” conta a mulher de fibra.  Complementando, ela afirma ainda “Foi uma gestação que durou dez anos”.

Muitas são as mulheres que não podem gerar em seu ventre uma criança. Mas, muito poucas são aquelas que decidem ser mãe por adoção.  Segundo, o Cadastro Nacional de Adoção, criado em 2008, pelo Conselho Nacional de Justiça – CNJ, existem 4.856 jovens na fila de espera, ou seja, aguardando serem acolhidos por um lar. São crianças e adolescentes de 0 aos 18 anos, que necessitam de uma família, concomitantemente, de educação. Mas, apesar do número de candidatos para adotá-los ser quase seis vezes maior do que o número de jovens, sobram muitos deles ainda nos abrigos, porque as exigências dos casais são grandes: crianças brancas, preferencialmente do sexo feminino, que não tenham irmãos e menores de 3 anos de idade.  Deficientes físicos - não precisamos nem dizer que estão fora desta lista.







Para agravar a situação das crianças abandonadas, outros fatores como o medo de levar para o convívio familiar alguém que possa causar problemas de índole, no futuro, fazem com que muitos casais não deem um passo à frente para adoção.  “Sempre contei com o incentivo e apoio da minha família, porque já tínhamos casos de sucesso entre nós. Minha família é grande e a adoção já era uma prática comum entre todos. Inclusive, eu tenho um irmão adotivo", explica M.G.A.F. 

Ela conta, satisfeita, que foi uma gestação coletiva por dez anos e, mensalmente, foi formando o enxoval do bebê, desde a época em que era noiva. Foram mamadeiras, camisetinhas, fraldas, sapatinhos, babadores, meias e outros objetos que preencheram o guarda-roupa. Depois de um ano de casada e com 28 anos, “chegou o meu príncipe, meu filho. Ele me foi entregue por uma mulher que não tinha condições materiais de cuidar da criança”, relembra M.G.A.F.  Com lágrimas nos olhos, ela afirma “Só quem acredita que uma família pode ser formada por laços do coração sabe o quanto esse momento foi intenso. E quando alguém me pergunta como foi o meu parto, digo-lhe que foi tão normal quanto minha gestação.”





Seu príncipe cresceu saudável. E, quando já estava chegando aos cinco anos fez aquela pergunta que muitas mães adotivas sabem que um dia chegará: 

- Mamãe, eu sai de sua barriga? 

Ela respondeu: - A barriga de mamãe estava dodói. Por isso, você veio em outra barriga e foi entregue para mamãe. 

Anos mais tarde seu príncipe, já entrando na adolescência perguntou:

- Mainha, você me ama?

- Claro, meu filho, respondeu M.G.A.F. Ela aproveitou e explicou que cuidar de um filho é adotá-lo, mas que existem muitas mães biológicas que não adotavam seus filhos. Porque adotar é um ato de amor e entrega.

De lá pra cá, seu príncipe, hoje um universitário bem sucedido e com 23 anos, não tocou mais no assunto, tampouco despertou qualquer interesse em conhecer outra família que não seja essa que o acolheu. 




Perguntei a M.G.A.F. qual o recado que ela daria às mulheres que pensam em adotar. Imediatamente, ela respondeu: 

“Não tenham medo. Só quem sabe a emoção de ter um filho é quem passa por ela, independente da forma como ele chegou. Quando se exerce a maternidade, muda-se toda a visão que se tem do mundo. Meu filho me ensinou a ser mãe.”


Um comentário:

  1. a leitura da "hora do reencontro" emocionou-me de forma ímpar, pois me orgulho de ter participado deste reencontro que dura até hoje.
    Parabéns pela matéria. Selma Barros

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Obrigada pela visita.