Bonequinha de carne e osso






- Seu Luiiiiiiiiiiz! O sinhô dissi que “toda menina que enjoa da boneca, é siná que o amor já chegou no coração. Meia comprida, não quer mais sapato baixo, vestido bem cintado, não quer mais vestir timão... Ela só quer, só pensa em namorar...”

- Mas, Seu Luizz, vou contá a vosmicê, qui nem toda minina tem boneca no Sertão, visse?! Di manhã cedo ela também não tá pintada, neim suspirando, neim sonhando acordada, ôme. Sabe pro quê? A minina teim que levantar cêdinho e sai junto com cumpadre pru roçado.

- Ôoxe, muié. Mas, tu cunhece alguma minina dessa?

- Cunheço simmm, senhor. A minina inté pareci ser fia di rei, tem nomi de princesa.

- i é????? Cumadre .

- Éeee. A minina é tooda faceira. Ela se chama Augusta.

- Num é que é mermo! Agora mi alembrei. Mas, a minina num tá na iscola?

- Tá não. A minina corta cana toodo dia. E tem cabra di ôio nela, visse! A mãe neim sabi. Mas, a minina já tá toda infeitiçada. “Ela só quer, só pensa em namorar”.

- Ôoooxente! Esse mal num é da idadi.

- Pois é, ôme. Tu se esqueceu di falar no teu xote que a minina num roçado, fora da iscola num tem as mermas oportunidadis. Logo se vai pela vida...






No tempo em que Luiz Gonzaga, compôs o seu conhecido “Xote das meninas”, certamente, fazia parte do seu universo cultural que elas brincavam de casinha e bonecas. Meninos com bolas, pipas e carrinhos de rolimã. Meninos quando crescidos, deveriam cuidar das meninas, proverem o lar e não deixar que nada lhes faltassem, apesar da pobreza. Talvez, o que não passou na cabeça de Seu Luiz foi que essa pobreza poderia avançar para uma situação de miséria social extrema, onde as crianças e adolescentes, boa parte fora da escola, iriam conviver com a marginalidade e iniciação sexual precoce, principalmente na zona rural. 

E os dados são alarmantes.  No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, a atividade sexual começa entre 15 e 16 anos. Mas, é na região nordeste que a situação fica pior. Em 2010, dos 26.221 partos realizados em meninas com até 14 anos, 10.868 foram entre as nordestinas, jovens que se tornaram mães quando seus corpos ainda estavam passando por transformações hormonais, físicas e psicológicas. Expostas a uma gravidez indesejada, a maioria ignora as doenças sexualmente transmissíveis, risco de mortalidade e sofrem a falta de cuidados médicos.





Você deve estar pensando: Será que ser mãe não exige uma preparação psicológica, material e um amadurecimento afetivo? Pois bem, essas meninas contrariam esse conceito.

Foi o caso de M.A.B., hoje com 32 anos e  trabalhadora. Para a menina que vivia cortando cana-de-açúcar, desde os 7 anos de idade, junto aos seus nove irmãos e com a finalidade de ajudar à renda familiar, o sonho de brincar de boneca terminou aos 12 anos, quando conheceu um calunga de caminhão, bem mais velho e se enamorou. Isso aconteceu lá pelos idos da década de 80, no Engenho Suassuna Mirim, em Jaboatão dos Guararapes - Região Metropolitana do Recife. 



Sem orientação sexual em casa e sem frequentar à escola, que segundo ela ficava muito longe e exigia uma boa caminhada por uma estrada de barro, M.A.B depois de dois meses de namoro notou que alguma coisa se mexia em sua barriga. Com medo e vendo crescê-la, a menina chorava escondido dos pais. Até o dia em que, conversando com uns adultos de sua confiança, soube que de sua barriga sairia uma criança. Ela estava grávida. E foram esses mesmos adultos que a incentivaram a tomar chás feito com ervas abortivas. Mas, todas as tentativas, sem o conhecimento de sua mãe, fracassaram.

Depois de nove meses numa mistura de medo, inocência e pobreza, nasceu Kézia. Uma boneca que se mexia, comia, falava e era carregada pelas coleguinhas da redondeza, por curiosidade e também para ajudar a menina que virou mãe. Após sete meses que a boneca de carne e osso havia nascido, era preciso que M.A.B. trabalhasse para sustentar a cria, apesar de sua mãe, mesmo sem instrução, tê-las acolhido. 

E como tantas brasileirinhas, lá se foi M.A.B., aos 13 anos, trabalhar como empregada doméstica, comprovando o que a literatura específica já concluiu “gravidez em idade precoce retira a possibilidade da adolescente continuar sua escolaridade, ascender social e economicamente.”

Trabalhando para oferecer uma realidade bem diferente à filha, M.A.B. conseguiu que Kézia concluísse o Ensino Médio e ingressasse no mercado de trabalho como resultado dos seus estudos. Por outro lado, Kézia como boa aluna, conseguiu que sua mãe se alfabetizasse, à noite, através do Programa de Educação de Jovens e Adultos – EJA. Até que um dia, num desses que poderiam ser extintos da vida de uma mãe, Kézia partiu, vítima de um acidente de motocicleta, precisamente em 2011.



Olhando para trás, M.A.B. - mãe ainda de duas adolescentes escolarizadas, de 9 e 13 anos e com uma atitude firme que a vida lhe impôs, deixa-nos um recado: “Todas as mães deveriam conversar abertamente com as filhas sobre sexo e os professores também. Adolescentes não têm juízo. Tem muitos rapazes que só querem ter a relação sexual e se vão. Além disso, tem muitos meios de evitar uma gravidez.”

Ela pára por um instante, procura com olhar vago um tempo que se foi e diz emocionada  “Eu gostaria de ter tido outra história, mas hoje só penso na saudade que tenho da minha filha Kézia. Tenho certeza que um dia vamos nos reencontrar”.




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