Parabéns Maria!

Quem tem uma boa não larga, agrada e, se fosse possível, até beijaria o chão que ela passa. Outros têm por necessidade, não por escolha e, na primeira oportunidade, vai dispensá-la. E quem não teve a sorte de ter uma ou se desiludiu, prometeu a si mesmo que prefere ficar só do que mal acompanhado.

Estamos falando da empregada doméstica. Isso mesmo! Você pensou que fosse de um relacionamento amoroso? Pois, digo-lhe que é quase isso. 



Casamos com a nossa empregada doméstica por vários motivos: ela entra em nossa casa, presencia as particularidades, compartilha dos momentos mais familiares gerando cumplicidade e algumas até ditam ordens que, dependendo de nossa agenda profissional, obedecemos.

Foi assim com o feijão preto, lá em casa. Tão inofensivo, ele fazia parte, mensalmente, da nossa lista de feira. Mas, cadê o feijão que nunca estava à mesa? Até que um dia, depois de vários esquecimentos devido à falta de tempo, perguntei a Maria porque não comíamos feijão preto. Eureka! Descobri, finalmente, que Maria não gostava de feijão preto, só do mulatinho. Pode!? E eu adorava. Aliás, é um dos meus feijões favoritos. 

E tem mais...

Todos os anos, sofríamos graves ameaças de Maria. Ela dizia que não iria fazer as tradicionais comidas de milho, no São João, porque era muito trabalhoso e cansativo. Argumentos pra lá, outros pra cá e Maria se rendia, como boa nordestina e interiorana que é, aos festejos juninos. Aí, que delícia as pamonhas e canjicas que Maria fazia mesmo dando, à beira do fogão, seus conhecidos muxoxos. Quem sabe se ela, por ter seu nome em homenagem a mãe do Senhor, não se sentia mesmo a soberana do lar.

Lembra, Niltinho, da famosa macaxeira ao forno? Como paulista da gema que você é, e visitando-nos em Recife, passou mal de tanto comer rsrsr? E o cozido à brasileira, em Serrambi, heim primo? 



Contudo, meu casamento com Maria durou quatorze anos. Digo-lhe, bem vividos. Até que um dia, seus defeitos falaram mais alto do que suas qualidades tornando-se incompatibilidades que, movidas por diversos compromissos profissionais, foram minguando a minha paciência e tolerância. E aconteceu a nossa separação, quase litigiosa – não por razões financeiras ou trabalhistas, graças a Deus, mas por fatores emocionais e incontestes. No entanto, conseguimos resolver tudo em paz, ficando ao final um saldo de uma amizade, sobretudo porque foi construída sempre no respeito . E até hoje a soberana, por telefone, acorda meus filhos no dia do aniversário deles para desejar parabéns. Tão cedo quanto a hora em que os preparava para irem à escola. E um detalhe: podendo ser sábado ou domingo.

Várias eram e são as qualidades de Maria, mas duas fizeram grande diferença para que ela permanecesse tanto tempo conosco: honestidade e dedicação às nossas crianças, fazendo com que jamais perdêssemos um dia de trabalho por causa de uma falta sua. Gratidão!

Gratidão é o sentimento que me move, passado alguns anos e fazendo uma retrospectiva, para com quem eu pude dividir a tarefa de ser dona de casa, mãe e profissional. Certamente, mas talvez sem a mesma compreensão, pode passar na mente de Maria que foi na minha casa onde ela iniciou a aprendizagem das letras, permitindo-lhe desvendar os livros infantis, provou variados gostos, usufruiu de um convívio familiar saudável, vivenciou o espírito de Natal até então desconhecido para quem tinha passado a infância no corte da cana-de-açúcar, sob o sol a pino.

E hoje, na pessoa de Maria, que saúdo todas as empregadas domésticas pelo seu Dia – 27 de abril, mesmo sabendo que a grande maioria não tem acesso ao computador, sinto-me na obrigação de parabenizar aqueles profissionais que fazem a diferença. Se, por acaso, você contar com a colaboração de algum dele que sabe honrar a profissão, não se esqueça de dizer-lhe “Parabéns” por executar um trabalho interminável, exaustivo e não recompensado à altura do seu merecimento. 

Um excelente final de semana. Beijos no coração.


   

2 comentários:

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