“Minhas Férias” ensina alguém a se expressar?





Texto de Dolores Orange
Revisora de textos da Revista Fera.



Lá vou eu escrever mais uma vez. Uma página, um título, uma idéia e basta colocar as mãos em movimento que se dá o milagre: o texto! Será assim tão simples escrever? Talvez os jornalistas digam que produzir um texto, depois que a manha se instala entre os neurônios deles, é bem tranqüilo como praia em dia de sol manso e maré baixa. Por que a maior parte das pessoas, então, acha tão complicado ordenar idéias no papel ou na tela do computador? Ah, já sei o que vem à cabeça de vocês: jornalistas são “escritores diários”, ora! E, por isso, escrevem com facilidade. Todos os reles mortais que só escrevem quando exigidos por alguma circunstância acham enfadonha só a simples idéia de escrever.

E faz muito sentido pensar assim. Na escola, lugar onde se estabelece os primeiros contatos com a escrita, nós somos convidados, na maior parte das vezes, a construir textos em situações artificiais e como opiniões “decoradas” sobre a realidade e seus problemas.





Quem não se lembra da velha redação cujo tema era “as minhas férias” ou das frases de efeito decoradas para iniciar um texto? Em geral, nas poucas oportunidades em que nos deparamos com uma escrita mais formal, não escrevemos o que queremos, muito menos aprendemos a dar vazão aos nossos sentimentos por meio de palavras escritas. Ao contrário, escrevemos o que uma banca examinadora de vestibular e o professor esperam de nós. Qualquer observador mais atento percebe que pouco sentido existe nessa prática de escrita escolar. E, assim, “por que a  gente precisa escrever na escola?” ou “o que eu aprendo com a redação?” são talvez perguntas que todos nós já fizemos em alguma altura da vida.

Ok, todo mundo sabe que, lá no fundo, alguma coisa se aprende com a redação escolar. Ordenar as idéias, articular argumentos, defender uma opinião, relatar um acontecimento...





Mas, na verdade, produzir textos em sala de aula é uma atividade quase sempre superficial, pois, embora seja através da linguagem que significamos o mundo – a palavra é, nesse sentido, a mais poderosa ferramenta humana de  construção de realidades -, não exercitamos de fato a habilidade de nos expressarmos através do texto escrito. Aprendemos a escrever sem um “projeto de dizer” e para um revisor que já sabe, mais ou menos, o que lerá.
E sabe por que não há um “projeto de dizer” por trás da escrita? Em geral, porque as produções de texto não têm uma conexão com a leitura. Quem não lê sabe o que escrever?

Não, não queridos! A escrita é uma prática, como já disse várias vezes, amarrada com a leitura e, assim, os textos escritos por não-leitores valem o mesmo que roupa costurada com alfinetes – basta um vento mais crítico e a casa cai! Por isso, para não ser um ventríloquo da escrita = aquele que diz apenas o que a escola ou os professores indicam – e para articular idéias de maneira clara, é indispensável ter a leitura com hábito.





Mas prestem atenção, queridos, pois não falo de qualquer leitura. Antes, me refiro à leitura praticada por vontade de aprender (contrária, muitas vezes, àquela feita na escola), que ajuda o indivíduo a resignificar as experiências da vida e os acontecimentos sociais, o que, consequentemente, funciona como uma prática de libertação e de autoconhecimento, que alarga a visão do homem perante o mundo e o mune de elementos para uma melhor interpretação dos fatos. Assim, quem consegue pensar a realidade de maneira mais crítica e profunda tem, sem dúvida, algo a dizer e pode levantar voz própria ao escrever um texto. Se há algo para ser dito, produzir texto pode ser uma prática menos complicada.






Escrever por prazer exige a paixão dos leitores vorazes ou, pelo menos, dos curiosos. Escrever uma redação ou um trabalho para a universidade, no entanto, exige conhecimento (de preferência) profundo sobre o assunto abordado. Mas, qualquer que seja a situação atrelada à escrtia, um fator (aparentemente óbvio) precisa ser compreendido: a escirta só tem sentido se nós econtrarmos sentido em praticá-la. Escrever apenas porque somos obrigados por uma circunstância é o mesmo que matar, ainda no berço, um hábito que pode nos ajudar a rearranjar as ideiais para pensar com mais clareza, tirando-nos, muitas vezes, do caos criado pelos inúmeros pensamentos que nos consomem. Fiquem ligados para não serem cúmplices de um assassinato!

Um comentário:

  1. Interessante! Alguns criticam a escola de antigamente, porque nos obrigada a ler e fazer uma ficha de leitura. Mas, muitos escritores famosos fizeram parte dessa escola. Hoje, a escola pública não obriga a leitura de paradidáticos ( a particular continua obrigando) e estamos, aí, com uma nova categoria de analfabetos, os funcionais.
    A produção de textos serve também para sondarmos o que o aluno sabe ou não sabe sobre ortografia.

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