Gênio forte, mas coração de ouro





Texto de Flávio Gikovate
Médico psiquiatra e escritor.




Certo tipo de raciocínio surge, durante uma conversa, tão frequentemente, que já virou lugar-comum. Resumindo, se expressa mais ou menos da seguinte forma: “Fulano tem gênio forte e estopim curto, mas possui um coração de ouro. Logo depois que estoura, fica calmo e não guarda nenhum rancor.”

A primeira coisa que vale repensar diz respeito ao gênio forte. É apropriado atribuí-lo a pessoas que reagem muito violentamente quando contrariadas? Será isso sinal de força? Na minha opinião, a resposta é “não”, principalmente se tal comportamento aparece frente a frustrações menores. Não suportar a mínima contrariedade, a meu ver, é sinal de fraqueza. Só alguém que não tem controle sobre si mesmo enfrenta com gritos e socos qualquer provocação.

A vida é muito rica em frustrações. Todos os dias acontecem várias coisas, que não estão de acordo com as nossas expectativas e que acabam com algumas de nossas esperanças. A reação mais amadurecida diante desses episódios inevitáveis é a tristeza, não a raiva, uma emoção típica da criança pequena, que não suporta o fato de o mundo não se moldar conforme sua vontade. É a isso que chamamos de pretensão à onipotência. Adultos que ainda reagem dessa maneira também são crianças mimadas. É curioso observar que muitos deles não foram superprotegidos pelos pais durante a infância. Apenas não conseguiram ter força interior suficiente para aceitar a realidade da vida em toda a sua extensão.

Não há dúvida de que suportar melhor as frustrações e dissabores mostra maior firmeza de caráter e a capacidade de absorver as dores pelas quais todos, fatalmente, teremos que passar. Quando a gente cai, de nada adianta sair chorando, responsabilizar alguém pelo nosso tombo e sentir raiva dele. Mais positivo é gastar toda nossa energia para conseguir levantar o mais depressa possível. Forte não é aquele que nunca é derrubado. Afinal, as pessoas covardes, por ousar muito pouco, são as que costumam evitar quedas. Forte é aquele que supera o medo de cair, porque sabe que, de alguma forma, dará a volta por cima.

Outro aspecto interessante é analisar o que significa estopim curto. Apelar para a violência, verbal ou física, diante de situações que envolvem certa dose de agressividade é um caminho fácil que evidencia a intolerância e a ausência de qualquer autodomínio. Essa característica revela falta de sofisticação interior. Tais pessoas se comportam como se nada distinguisse o homem das demais espécies animais. Não foram capazes de “domesticar” seus impulsos agressivos. Perdem o sentido da proporção. Já que não aprenderam a argumentar, atacam.

Não é admissível, por exemplo, que um ser humano, dotado de razão e bom senso, de repente se descontrole totalmente e chegue a atirar para ferir seu semelhante, alegando a seguir, como defesa, que foi vítima de alguma arbitrariedade no trânsito. É bom que se diga que muitos desses indivíduos só perdem a esportiva e “cometem loucuras” quando se defrontam com criaturas indiscutivelmente mais fracas. É a clássica situação daqueles homens que batem nos filhos pequenos ou em suas mulheres porque estão com ciúme ou outro problema qualquer, mas são os primeiros a se controlar se o adversário na briga é um homem bem maior e mais forte. É a velha filosofia de “dois pesos e duas medidas”. O sangue não lhes sobe à cabeça quando percebem que podem levar a pior.

Há um último chavão que diz respeito ao coração de ouro, suposta qualidade das pessoas explosivas. Muitas delas realmente, depois que desencadearam a tempestade, amansam de repente. Os demais, que ficaram quietos e ouviram uma série de desaforos, acabam - é claro – acumulando mágoas. Pode ser que, em poucos minutos, aquele que gritou e agrediu esteja pronto para retomar o fôlego e o diálogo como se nada tivesse acontecido. Esperar a mesma atitude de quem se controlou e não partiu para a briga já é pretender demais.

É compreensível que os humilhados e ofendidos não tenham a menor disposição para um bate-papo amigável. Talvez demorem um bom tempo para digerir as mágoas e pode até ser que um dia não consigam mais perdoar a pessoa que tanto os maltratou. Serão chamados por isso de rancorosos e insensíveis. O que me impressiona é como argumentos sofisticados, tão obviamente falhos, acabem convencendo um enorme número de indivíduos inteligentes e bem preparados.

Quem desenvolveu a tese gênio forte, estopim curto, coração de ouro, na certa trabalhou em benefício próprio. A verdade é que quando os estourados se sentem agredidos e não conseguem reagir são extremamente vingativos. Acho, mais uma vez, que a sabedoria popular pode nos iluminar. Dizem os caipiras: “Quem bate esquece, quem apanha não.”




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