Errata



Erratas da vida
                                                                   Lya Luft

Na coluna anterior, cometi um erro que cobraria aos alunos meus, quando lecionava em faculdade: citei um poema como sendo da falecida poeta americana Sara Teasdale, mas era de Edna St. Vincent Millary. Uma leitora chamou minha atenção por e-mail, respondi agradecendo e hoje estou fazendo a correção. Se eu fosse mais minuciosa, na hora de escrever teria prestado atenção em uma vaga vagulha de dúvida quanto ao nome da escritora, que me inquietou numa fração de segundo. Teria recorrido à internet para confirmar. Não fiz, não fui boa aluna, errei, agora a errata.

Depois fiquei pensando em algo que escrevi meses (ou anos?) atrás: não poder fazer erratas na vida. Por exemplo, fazer uma errata para os momentos em que fui impaciente e boba, em que deixei de escutar o outro, em que atropelei suas palavras ou sentimentos, porque estava cansada, ou sem tempo, ou simplesmente sem educação, sem carinho.

Ou quando, menina e adolescente não gostava de visitar uma de minhas avós, de quem hoje me lembro com enorme afeto e interesse. Foi uma das primeiras mulheres fotógrafas do seu tempo, apenas escondia isso dando ao seu ateliê o nome do marido. Lia muito e me emprestava biografias de mulheres famosas, princesas, atrizes. Mas, naquele tempo de avós menos divertidas, as visitas a ela eram acompanhadas de mil recomendações: fale alemão com a vovó, sorria, seja gentil, peça para ver o jardim e elogie as flores, não conte que a mamãe ontem foi jogar cartas com as amigas e não a convidou. Enfim, eu já saia de casa com receio de fazer alguma coisa errada. Hoje acho que, se fizesse, ela e eu iríamos nos divertir.

Seria bom fazer uma errata para as vezes em que fui uma aluna impossível, sempre inquieta ou distraída, ou rindo de bobagens quando era para ficar séria, com horror a autoridade e limites, o que muitas vezes me valeu belos castigos – no tempo dos castigos -, do tipo escrever 100 vezes “Devo me comportar bem na sala de aula”. Uma errata boa seria para as vezes em que fui ríspida ou impaciente com meus filhos pequenos, que amei – como ainda amo – de maneira intensa, e feliz, e emocionada.

Uma errata necessária seria para todas as vezes em que senti culpa por não estar fazendo nada, no meio da tarde, exausta, sentando ou deitando no sofá, pernas para cima, vendo televisão, ou lendo um livro, ou apenas olhando pela janela, nisso que Freud chamava “atenção flutuante”, que em certas pessoas, como em mim, são horas de grande e silenciosa produtividade.

Errata para as vezes em que eu podia ter viajado mas não fui, por covardia; em que devia ter falado e não falei, por preguiça; em que devia ter me calado e falei, por ser estabanada e tender a falar antes de refletir.

Uma errata para as muitas decisões atrapalhadas, tantas indecisões desnecessárias, tantas lágrimas por tolices  tanta mágoa por infantilidade.

Errata para os erros e também para o que não foi erro, mas desatenção, inabilidade, incompetência mesmo.

Mas como a vida não é uma dissertação de mestrado, nem tese de doutorado, nem livro  sendo escrito (embora eu ache que muito a gente mesma decide e escolhe), já que ela é uma batalha que nem sempre se vence, não adianta querer escrever errata alguma. É preciso contar com o perdão dos outros e a anistia da gente mesma. Apesar das visitas feitas com má vontade ou adiadas eternamente, das pequenas más-criações idiotas, dos telefonemas não dados, do sorriso amarelo, do frequente boicotar-se no que temos de melhor; apesar das mentirinhas, das ironias, das maledicências (mesmo inocentes, mas nenhuma é inocente de verdade), das negligências, da preguiça, das queixas e das falhas inevitáveis – temos de tocar em frente.

Mas bem que se poderia ter a permissão, a possibilidade, o enorme conforto de escrever ou fazer para todas as imperfeições cometidas, uma bela errata, porque afinal a gente é apenas uma pessoa, e o velho provérbio chatinho diz que podemos ser anistiados; afinal errar é coisa desse ex-quadrúpede que se meteu a andar ereto, e ainda por cima a pensar, e virou humano.

Revista Veja, edição 2258,a.45, n.9 22 fev. 2012

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