A brasa solitária



Juan ia sempre aos serviços dominicais de sua igreja. Mas, começou a achar que o líder religioso dizia sempre as mesmas coisas, e parou de frequentar a congregação.

Dois meses depois, em uma fria noite de inverno, o líder religioso foi visitá-lo.

“Deve ter vindo para tentar convencer-me a voltar”, pensou Juan consigo mesmo. Imaginou que não podia dizer a verdadeira razão: os sermões repetitivos. Precisava encontrar uma desculpa e, enquanto pensava, colocou duas cadeiras diante da lareira e começou a falar sobre o tempo.

O religioso não disse nada. Juan, depois de tentar inutilmente puxar conversa por algum tempo, também se calou. Os dois ficaram em silêncio, contemplando o fogo por quase meia hora.

Foi então que o religioso se levantou e, com a ajuda de uma que ainda não tinha queimado, afastou uma brasa, colocando-a longe do fogo.

A brasa, como não tinha suficiente calor para continuar queimando, começou a apagar. Juan, mas que depressa, atirou-a de volta ao centro da lareira.

- Boa noite – disse o religioso, levantando-se para sair.

- Boa noite e muito obrigado – respondeu Juan.  – A brasa longe do fogo, por mais brilhante que seja, terminará extinguindo-se rapidamente. O homem longe dos seus semelhantes, por mais inteligente que seja, não conseguirá conservar seu calor e sua chama. Voltarei à igreja no próximo domingo.”

                                                                    COELHO, Paulo. Ser como o rio que flui: relatos. 
                                                                     São Paulo: Gold Editora, 2007.

De vez em quando, seja por conveniência pessoal,  orgulho ou até vaidade nos afastamos da convivência daqueles que, de uma maneira ou de outra, nos fazem bem. Pode ser um grupo religioso ou não, uma pessoa ou pessoas. Todavia, o certo é que não fomos criados para vivermos sós, tampouco sem nos dedicarmos a alguma crença ou semelhante. Essa crença extrapola o físico, o tangível, a matéria, o corpo. Podemos acreditar que uma energia cósmica rege o universo, coordena os planetas e todas as espécies a qual daremos um nome de acordo com a nossa herança cultural e antropológica. Mesmo os incrédulos, em alguma época de sua vida sentirão necessidade de uma explicação, uma compreensão, um sentido ou caminho. 




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