Certos talentos








Existem casas em que, a qualquer hora que você chegue, a sala está perfeitamente arrumada, os jornais dobrados como se nunca tivessem sido tocados por um ser humano, flores nas jarras. Ah, e os quadros nas paredes nunca estão tortos. Seja de manha, à tarde, seja à noite, as donas dessas casas têm sempre o que oferecer: um suco de frutas frescas, um sorvete, um pedaço de bolo, biscoitinhos, um sanduíche – com direito a um guardanapinho bordado. Se você aparece na hora do almoço, é convidada para almoçar, com sobremesa no final, claro; como elas conseguem?

Quem está acostumada a morar sozinha não entende. Quantas vezes, ao voltar pra casa à noite, você tem que se contentar com uma fatia de pão com margarina, tal a indigência da geladeira? Com as frutas, é assim: se tiver mamão, da vontade de comer laranja; se tiver melancia, mamão e laranja, da vontade de comer kiwi, só porque não tem. Acaba indo para o lixo, um problema.  Aí, você resolve se organizar. Faz uma lista e escreve as coisas que não podem faltar numa casa: queijo, presunto, geleia  alface, tomate, uns legumes. No freezer, carne, peixe e galinha; e, no armário, macarrão, que é o salva-vidas dos celibatários. Vai ao supermercado e abastece a geladeira – só que nem assim funciona. Quem se lembra de tirar algo do freezer de manhã pra fazer o jantar? 

Ao chegar à noite, não dá tempo pra descongelar nada e as opções, ou melhor, a opção acaba sendo a de sempre: o macarrão. Mas o macarrão exige um realce, e o manjericão está murcho e negro. Aqueles molhos dos restaurantes não acontecem por milagre, e, como os ingredientes não foram comprados, o resultado é espaguete com manteiga – se tiver manteiga. O queijo, que inventaram que não pode ser de pacotinho, e sim ralado na hora, você descobre que está no fundo da geladeira, duro que nem pedra. Só chorando. E, se partir para o molho de tomate em lata, vai acabar a noite aos soluços.

Volta a pergunta: Como algumas mulheres conseguem ter sempre as coisas deliciosas para oferecer a qualquer hora do dia? Na casa delas, a coca-cola não acaba nunca e tem sempre queijo de minas e creme de leite fresco. Já na casa das outras, existe uma rotina: a cada dez dias, abrir a gaveta dos legumes da geladeira e jogar fora duas cenouras, um pacote de endívia, dois tomates, meio limão e a metade de uma cebola meio murcha. E, enquanto vão jogando no lixo, a pergunta se repete: “Como elas conseguem?” É uma questão de dom, que só algumas têm, mas no tempo de nossas mães e avós todas tinham. Será que não nos ensinaram ou não quisemos aprender, preferindo arranjar bem cedo um emprego em nome da independência?

Os filhos das mães modernas nunca conhecerão a felicidade que era chegar em casa no meio da tarde e logo surgir um bolo saindo do forno, bolo de tabuleiro, coberto de calda de laranja e açúcar. Mas, como não sabem o que é isso, nunca vão sentir falta dessa felicidade.

 Danuza Leão
(Revista Cláudia, dez.2011)

3 comentários:

  1. OI amiga, que belo texto. Realmente ficamos a nos perguntar "por que elas conseguem?". Acho que uma das respostas pode ser pelo fato de que percebemos amor, carinho e muito prazer no fato de receber, e por que não dizer, doar-se. Se pararmos para observar nos rostinhos delas quando nos oferecem um lanche... uma fatia de bolo... um chá... um cafezinho... É pura ternura!. Lembro-me das minhas avós... saudades!
    Bjs, Sandra

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  2. acessem meu blog por favor, sigo de volta!

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  3. Visitei seu blog, Alice. Muito legal! Beijos.

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Obrigada pela visita.