Estranhos mistérios



Qual o mistério que leva o escritor Roberto Beltrão, também jornalista, editor do NETV 1ª edição da Rede Globo Nordeste, a escrever sobre temas, digamos, pouco comuns como assombrações, fantasmas, cemitérios, almas penadas e monstros? Necessidade de adrenalina, curiosidade, medo ou simplesmente vontade de adentrar no imaginário das pessoas e desvendar suas experiências sobrenaturais?


O Tudo na nécessaire conversou com Beltrão, também criador do blog orecifeassombrado.com.






Tudo na nécessaire: A revista Continente Multicultural deste mês traz como reportagem principal um pouco da história do maior cemitério do Recife, o de Santo Amaro. O que levou você a escrever sobre o tema?

Roberto Beltrão: Mostrar o Cemitério sob uma ótica histórica, urbanística, cultural e como representação de costumes e tradições de várias gerações. Muitos túmulos, jazigos e mausoléus foram construídos e decorados com esculturas que revelam as tendências de várias escolas arquitetônicas, podendo ser considerados como um museu a céu aberto, assim como em alguns países europeus. Cito também o cemitério como local de lazer, já que algumas pessoas passeiam para usufruir de tranqüilidade e poder meditar.

Tudo na nécessaire: O que inspira você a escrever sempre sobre uma temática tão pouco comum para alguns? Algum fato que remete a sua infância?

Roberto Beltrão: Não existe um fato específico que ocorreu na minha infância. Mas, quando eu era criança, gostava de ouvir histórias de assombração, principalmente, quando tinha blecaute. Nessa época, eu morava no bairro da Tamarineira, no Recife, e, quando faltava energia elétrica, sentávamos na rua e começávamos a contar lendas que causavam certos arrepios. Eu também costumava ir para casa do meu avô, na Usina Pedroza, município de Cortês – Zona da Mata de Pernambuco -, lá, eu e  meus primos nos divertíamos à noite falando sobre fantasmas e botijas. Lembro que os moradores contavam que na praça principal da cidade havia um banco das almas. Além disso, fui um leitor voraz e gostava de obras de ficção científica e terror. Mas posso afirmar que minha inspiração vem do desejo de reviver o imaginário popular, relatar as experiências inexplicáveis – individuais ou coletivas - e resgatar fatos lendários que foram passando, oralmente, de geração em geração.



Tudo na nécessaire: Você foi uma criança medrosa?

Roberto Beltrão: Não. As lendas assemelhavam-se, na maioria das vezes, com as anedotas. Para mim, elas são mais curiosas.

Tudo na nécessaire: Você já teve alguma experiência sobrenatural?

Roberto Beltrão: Não. Mas eu lembro que meus pais tiveram. Meu pai era dentista e um dia, depois do trabalho, adentrou em casa todo arrepiado e disse para minha mãe que tinha visto, num banco de cimento que tínhamos no jardim, uma mulher. De início, minha mãe não acreditou, mas meu pai começou a vê-la também dentro de casa. Até que um dia, minha mãe estava varrendo a casa, por volta do meio-dia, e quando levantou a cabeça viu o fantasma. Impressionada e com medo, ela contou a nossa empregada que também disse que já tinha visto.



Tudo na nécessaire: A partir de qual idade você começou a escrever sobre o tema?

Roberto Beltrão: Na década de 80, um amigo meu emprestou o livro “Assombrações do Recife Velho”, escrito pelo sociólogo Gilberto Freyre, a partir de uma pesquisa realizada nos anos 20. O livro foi lançado nos anos 50.  Surgiu daí, a ideia da criação do site http://www.orecifeassombrado.com/ para reproduzir as histórias contadas por Freyre e divulgar novas, fruto da contribuição dos leitores.

Tudo na nécessaire: Foi a partir do site que foram criados os passeios culturais, à noite, para visitar os lugares mal-assombrados no Recife?

Roberto Beltrão: Foram produzidos pela Secretaria de Turismo da Prefeitura do Recife. A partir do meu livro “Histórias Medonhas d´O Recife assombrado” e o de Gilberto Freyre, os passeios foram montados em circuitos itinerantes, uma vez por mês. Nesses passeios, alguns atores encarnam os personagens lendários das histórias, levando o público a percorrer trilhas, e velar muitos sustos. Na época, dei uma modesta contribuição à equipe de produção do evento.


Tudo na nécessaire: Você publicou três livros sobre o assunto. Qual o enfoque diferencial entre eles?

Roberto Beltrão: Em 2002, eu publiquei “Histórias medonhas d’O Recife assombrado”, reunindo os textos que eu havia publicado no site e alguns depoimentos enviados pelos leitores. Como o tema é inesgotável, fiz um trabalho de pesquisa e conversei com várias pessoas que afirmaram ter tido experiências sobrenaturais, entre elas Cristina Freyre, nora de Gilberto. Esse trabalho deu origem, em 2008, aos “Estranhos mistérios d’O Recife Assombrado”. Em 2010, quis escrever um livro voltado para o público infanto-juvenil e lancei “Malassombramentos: os arquivos secretos d’O Recife assombrado”, contando com a contribuição de vários autores. Nele, os contos foram criados para fins didáticos, sendo o livro adotado em muitas escolas públicas e particulares do Recife. Todos foram editados pela Bagaço.




Tudo na nécessaire: Para encerrar o nosso bate-papo, o escritor Roberto Beltrão acredita em fantasmas, assombrações ou numa vida após a morte?

Roberto Beltrão: (Risos). Na verdade, considero-me agnóstico. Mas, tenho uma convicção que a vida transcende a matéria. Na minha concepção, cada pessoa tem uma visão diferenciada da realidade a partir de suas experiências sociais, culturais e até mesmo religiosas. Eu, por exemplo, não acredito que os fantasmas habitem os cemitérios, mas que eles existem e são cultivados na memória saudosa daqueles que ficaram na terra.


2 comentários:

  1. Cemitério também é cultura! Mas não o quero como opção de lazer. Prefiro meditar na praia, olhando o horizonte. rsrs Abraços!

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  2. Excelente a reportagem! Muito interessante. Parabéns!

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