Cosméticos e ... livros



“Ler é tudo de bom porque traz:

Cultura – por meio da leitura, podemos conhecer costumes e povos diferentes e, assim, aprender a respeitar realidades diferentes da nossa.  Leituras informativas, como o jornal, nos deixam por dentro do que acontece no mundo e ao nosso redor;

Conhecimento – ao ler, aprendemos também a falar, escrever e nos expressar melhor, aumentando o contato com o nosso idioma e a nossa história;

Vocabulário – quem lê tem contato com uma grande diversidade de palavras e conquista um vocabulário muito mais rico do que não leitores.”

Esse é um texto que abre a revista da Avon, dedicada à Moda & Casa, número 18/2011, onde ilustra na capa uma família composta de pai, mãe e um casal de filhos. Todos estão lendo e sorrindo. No alto da capa tem um título: “Um universo de leitura, cultura e lazer para sua família”. O título acompanha como legenda bibliográfica, as 22 páginas que a indústria de cosméticos reservou aos seus clientes. Nelas, existem ofertas de livros de auto-ajuda, romances e religiosos que já ocuparam as filas dos mais vendidos nas livrarias. O preço é diferenciado, bem menor também do que nas livrarias. Ampliam-se também as ofertas com os dicionários, acompanhados é claro pela mídia eletrônica – o DVD.

O brasileiro está lendo mais. Dá para concluir. Caso contrário, a Avon que divulga, no seu histórico, uma receita anual de mais de 10 bilhões de dólares, não estaria à caça desse nicho do mercado.  Só no Brasil, esta indústria de cosméticos tem cerca 1,1 milhões de vendedoras que vão de porta em porta transformar os seus produtos em rendas mensais. Aliás, quem nunca folheou uma de suas revistinhas que aparecem, disfaçadamente, no ambiente de trabalho, no salão de beleza ou qualquer outro local?

Se por um lado a Avon é líder mundial em venda de cosméticos, por outro é bastante positivo que ela ofereça livros, porque equivale dizer que eles chegam também nas cidades interioranas, em lugares onde jamais sonhamos visitar. 

Minha imaginação viaja até a aqueles jovens, moradores de um sítio qualquer ou brejo,  se deparando com a possibilidade de ter um livro.  

Alguns leitores perguntar-se-ão: Mas, eles compram? Não vamos duvidar. Afinal, são esses jovens que, com menores opções de lazer do que aqueles que moram nos centros urbanos, quando incentivados e estimulados são capazes de dar resultados tão satisfatórios, que já colocaram suas escolas como finalistas e até ganhadoras do Prêmio Nacional de Gestão Escolar, promovido pelo Conselho Nacional de Secretários de Educação – Consed, em parceria com algumas entidades, incluindo a Fundação Roberto Marinho e Unesco. Só em Pernambuco, o Prêmio já foi concedido, em 2005, à cidade de Araripina, no longínquo Sertão do Araripe. E, na lista das finalistas de 2009/2010 ficou gravada uma escola pública, encravada no Sertão do Pajéu, há mais de 320 quilômetros de distância da capital pernambucana, em Quixabá.

Será que esses jovens não lêem? Ofereçam as oportunidades e condições.

Em 2009, o Ministério da Educação lançou uma campanha “Cada município, uma biblioteca”, com o objetivo de garantir dois mil livros, computador, mobiliário e um equipamento multimídia para mais de 650 municípios que não dispunha de bibliotecas públicas. Na época, houve, um clamor social e muitas entidades civis apoiaram a campanha pedindo aos seus clientes e parceiros doações de livros e revistas. No entanto, um dos grandes problemas dessas campanhas é gerir e selecionar as doações. Como as pessoas têm um enorme entrave para descartar, ou seja, jogar no lixo mesmo livros e revistas obsoletas, doam para essas campanhas. Não sabem elas que mais criam um problema do que ajudam. Porque as entidades costumam encher os caminhões e fazerem manchetes da quantidade de livros arrecadados, como se isso fosse sinônimo de qualidade. Muitos livros são doados sem a menor condição de uso. Como a mídia não vai, tempos depois, saber como estão estruturadas as bibliotecas municipais, exceto em casos bem gritantes e denunciados, os “acervos” terminam jogados em salas sem menor condução de uso e aproveitamento.

A verdade é que livro e revistas ainda custam muito caro para a maioria de nós brasileiros, o que dificulta sua aquisição. Iniciativas com a da Avon não incentivam o hábito de leitura, apenas estabelece um elo entre um provável mercado consumidor e o produto. O que é preciso, no Brasil, são investimentos maciços e efetivos nas áreas culturais e educacionais que permitam democratizar o conhecimento,  do norte ao sul do país, um direito assegurado ao cidadão.



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