Ensino Superior. Acesso simplificado. Resultado incerto.


Bons textos merecem ser divulgados mais e mais.

O Tudo na nécessaire publica, hoje, o texto escrito pela colega jornalista Andréa Tavares, mestra em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Federal de Pernambuco - UFPE.


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"Ao me deparar com o final de mais um semestre e com o repetitivo roteiro para o qual alguns de meus alunos caminham, ou seja, o Exame Final, sinto-me impulsionada a propor um momento de reflexão. Se pensarmos que o embasamento didático para o referido procedimento de avaliação é oferecer outra oportunidade aos que, pelos mais diversos motivos, não alcançaram o aproveitamento necessário em determinada disciplina; consideraremos a ferramenta propícia, eficiente e eficaz.

Entretanto, esse mecanismo que deveria ser exceção, tornou-se prática. É preocupante verificar a declarada confiança que certos alunos insistem em alimentar já no início do semestre letivo. Eles primam pela infeliz análise: “Se não conseguir, vou para a Final, quando a média de aprovação baixa de 7,0 para 5,0. É fácil”. A frase entre aspas muda um pouco, a cada novo semestre, mas o contexto, lamentavelmente, é o mesmo.

Em 16 anos atuando como jornalista e, há sete anos exercendo, paralelamente, a docência em disciplinas vinculadas à Comunicação Social; Ciência Política e Relações Internacionais; sempre verbalizo palavras de encorajamento aos que chegam às unidades de Ensino Superior. Também proponho modelos de avaliação que se estendam além da prova formal. O aluno precisa ser visto como um todo. Assim, a participação em sala; a frequência com que assiste às aulas e interage nas atividades propostas, a exemplo de trabalhos, debates e seminários, são levadas em consideração. Parto do princípio de que o desafio é contribuirmos na formação de mulheres e homens preparados para aprimorar o ambiente no qual vivemos e ajudá-los a se desenvolverem profissionalmente e de maneira ética.

A obrigatoriedade do diploma de nível superior, no presente cenário, é um fato inquestionável. Mas de que maneira a graduação desses universitários tem se processado? A abertura de novas instituições de Ensino Superior, e a consequente melhoria na oferta de vagas, parece-me uma faca de dois gumes. Muitos têm saído do ostracismo e partido para novos horizontes, entretanto, uma parcela parece se acomodar, acreditando que, no final de tudo, sempre é possível obter um diploma. Esse grupo esqueceu ou desconhece que a Graduação é apenas o primeiro degrau no processo de aprendizado contínuo, e que o diploma não garante nem mesmo uma vaga no tão almejado mercado de trabalho.

Prova disso, é que as empresas atentas a manobras como essa solicitam mais que o diploma. Antes de efetivar a contratação, exigem o histórico do pretenso candidato. É nesse documento, relegado a segundo plano, que o universitário mostra o desenvolvimento, ou não, das habilidades mínimas exigidas para o exercício da atividade profissional que escolheu.

Somos, então, surpreendidos por um novo questionamento. O que fazer para assegurar igualdade de oportunidade e alavancar o nível intelectual do País, se a abertura de novas faculdades e melhoria da oferta de vagas não transformaram concluintes do Ensino Médio em alunos sedentos por mais aprendizado? Como minimizar a gritante defasagem de conhecimento com que parte expressiva desse grupo chega ao universo acadêmico e municiá-la das ferramentas necessárias ao crescimento pessoal e profissional?

Admito não existir fórmulas prontas, porém sugiro buscarmos soluções viáveis e imediatas, se não quisermos nos deparar, em menos de duas décadas, com pseudoprofissionais que se dirigirão a mim ou a você, dizendo: “olá, professor (a)”. Neste momento, veremos um semblante frustrado devido ao “fraco desempenho obtido no mercado de trabalho”, ou, ainda, “um olhar sem brilho, acomodado” por achar “que fez e recebeu tudo que poderia, mas, mesmo assim, não assegurou para si um futuro melhor”.

Se o vestibular não é suficiente para mensurar conhecimento, a isenção ou mera aplicação de testes simbólicos para o ingresso nas faculdades também não tem se mostrado a melhor maneira de estimular os que migram para essas instituições. É como se eles adotassem “um ritual que está na moda”, porém sem a capacidade mínima de concatenar ideias nem responder a uma prova descritiva, por exemplo.

Da mesma maneira que não conseguem se expressar, não compreendem um texto nem se sentem estimulados à leitura de um livro mais denso. Para eles, está tudo na rede mundial, na internet, e, melhor, “devidamente resumido”. O dever moral de oferecer oportunidades de aprendizado e ascensão aos cidadãos desse País é inegável. Apenas me preocupo, pois não basta se conformar com estatísticas que apontam redução do número de analfabetos e inclusão nos Ensinos Fundamental, Médio e Superior. Os números, senhores, estão bem distantes da realidade qualitativa.

Admito não conseguir “fazer de conta” que o “cenário intelectual do Brasil melhorou” porque mais pessoas estão nas salas de aula. Declaro, lamentavelmente, que alguns dos meus alunos, aos quais devoto respeito e com os quais firmo um contrato pedagógico, no início de cada semestre, continuarão a seguir rumo ao Exame Final e, se necessário, à reprovação. Posso não contribuir com as pesquisas dos governantes, mas estou convicta de que a aprovação é mérito conquistado por cada aluno, com a ajuda e incentivo do professor. Para mim, não valem as frases: “Passei de ano” e; a menos simpática: “o professor me reprovou”.

Todos, docentes, discentes e cidadãos comuns, são igualmente responsáveis pelas oportunidades que abraçam e pelo efeito transformador, ou não, que dão à própria vida e à de outras pessoas que integram esta sociedade plural, dinâmica e “pós-moderna”, como define o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. O momento é marcado pela “vontade de liberdade”, totalmente associado à velocidade das mudanças econômicas, culturais, tecnológicas e do cotidiano. Vivenciamos um mundo incerto e incontrolável. Um cenário bem diverso daquele projetado por Sigmund Freud, então ocupado por uma sociedade estável, que visava manter a ordem."



Um comentário:

  1. O vestibular não serve para medir conhecimento de quem quer que seja, apesar de constituir-se em um paradigma que embasa muitas das "propostas de excelência" de várias escolas e colégios, nomeadamente os de cunho particular. Tem sido objeto de exclusão e tem como propósito ser uma ferramenta capaz de eleger apenas os que são capazes de cumprir um ritual, muitas vezes repetido em sala de aula. Sendo na maioria das vezes injusto com os que desenvolvem, ou procuram desenvolver a consceiência crítica dos alunos... O Enem, é uma tentativa acanhada de mudar esse paradigma... A educação básica é que deveria ser melhorada, com o apoio dos professores, que estão desmotivados por diversos motivos, estes sim é que deveriam promover uma melhoria da educação com apoio pedagogico, melhoria nas qualidades de ensino e remuneração digna

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