HD humano



Sou do tempo em que se aprendia a ler, soletrando; que éramos obrigados a fazer a leitura da lição em pé. Se as pernas tremiam, ao menos aprendíamos a ler sem gaguejar.  Tínhamos como tarefa de casa, a cópia do texto cujo objetivo era memorizar a escrita das palavras porque no outro dia ou durante a semana poderia haver um ditado- surpresa. Não escapei também dos cadernos de caligrafia para não escrever, no futuro, os “garranchos”.  Apesar de muitos de nossos pais não serem letrados, compreendiam que era preciso um dia escrever de forma legível. Os professores tinham autoridade e se não alcançássemos a nota mínima, considerada como o indicador médio de aprendizagem, éramos reprovados e obrigados a estudar todas as matérias novamente, no ano seguinte. Não havia aprovação por Conselho de Classe ou manipulação de notas e conceitos para que pudéssemos passar para a série seguinte. E as nossas mães se conformavam com o resultado, porque acreditavam ser o professor a pessoa mais indicada para avaliar a aprendizagem escolar de sua prole. Era o tempo em que não se falava em pais que batiam nos mestres, nem tampouco alunos que ameaçam ou matavam o professor.

Nos idos dos anos 70 para 80, as pesquisas escolares ainda eram feitas nas poucas bibliotecas que existiam, nas enciclopédias ou em algum livro emprestado de um irmão ou vizinho. Preenchíamos folhas e folhas de papel pautado, com textos escritos à mão. Pintávamos, colávamos e recortávamos revistas para servirem de ilustração no “dever de casa”, quando não fazíamos em cartolina ou isopor. Pode parecer um tempo distante para muitas pessoas, mas por incrível que pareça, não é.  Não estou aqui tentando ludibriar a minha idade, porque deste mal eu não sofro, já que quero ter muitas histórias ainda para contar.

Com o passar dos anos, muitos métodos de ensino foram considerados ultrapassados porque reprimiam o aluno, cerceavam a criatividade, retiravam a liberdade de pensar e de ser co-autor do seu aprendizado. No entanto, a liberdade deveria ter vindo acompanhada da responsabilidade não só do discente, mas de seus familiares ou responsáveis.






As ferramentas de pesquisas mudaram. Hoje a internet proporciona, tanto para alunos e pesquisadores, o conhecimento mundial em apenas poucos minutos. Com a vasta quantidade de informação disponível, aqueles que não estavam preparados para selecioná-las, avaliá-las e utilizá-las para geração do conhecimento, começaram a copiá-las e pior, a subtrair de forma ilegítima a fonte consultada, quando não lesaram todo o patrimônio intelectual copiando outro trabalho monográfico na íntegra. Exemplos típicos ilustraram as páginas de jornais e muitas das respeitadas instituições de ensino superior tiveram que adotar normas para punir os infratores, ameaçando-os até de expulsão. 

Ocultar citações, copiar textos na íntegra podem revelar, contudo, a falta de compreensão do aluno sobre a real finalidade de um trabalho de conclusão de curso, o famoso TCC, enquanto fixação de aprendizagem e geração de conhecimento. Muitos são os alunos que, na primeira orientação do professor, escolhem o assunto que irá discorrer. Mas, confundem a temática com o título, não entendem que toda pesquisa precisa do método, sentem dificuldades em buscar a bibliografia e outras fontes de consulta pertinentes à área e desconhecem a necessidade da padronização textual.  Quem tem levado a culpa? a ABNT. 

Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT passeia, pelos corredores das faculdades, sequiosa por engolir como um bicho-papão os trabalhos acadêmicos que não atendam as suas exigências,  que vão desde o tipo de letra utilizada ao espaçamento das entrelinhas do texto. O terror que se apossou das normas começou a envolver alunos, e até mesmo muitos professores multiplicam, em sala de aula, a informação de que as normas são publicadas anualmente quando, na verdade, têm normas que estão válidas desde 2002, como as de citação e referências.

A culpa, que obviamente não é da ferramenta que normatiza, tem via de mão dupla. Se por um lado, os alunos têm uma deficiência em interpretar os textos e construir outras fontes de consulta, por outro, uma vasta quantidade de docentes têm dificuldades em administrar a imensa fatia de trabalhos que deverá ser corrigida e orientada. Diante da falta de interesse de muitos alunos que estão preocupados em receber apenas o seu diploma, alguns professores sentem-se desmotivados. E nesta triste realidade, muitos daqueles que poderiam estar aproveitando seu tempo em absorver os ensinamentos dos autores que se preocuparam em questionar, investigar, analisar, comparar, pesquisar, sistematizar e publicar, estão esquecendo que estamos na Era do Conhecimento e não será o diploma que garantirá a sua empregabilidade, mas o conteúdo armazenado no HD humano: o seu intelecto.




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