Minha madrinha





Têm pessoas que se relacionam bem com a idade, outras não. 

Quando eu tinha uns oito para dez anos, minha madrinha tinha vinte e poucos anos de idade. Fui ficando adolescente e ela balzaquiana. Então, eu achava tudo natural.  Até que um dia, fiquei adulta e ela continuava na casa de seus trinta e cinco anos. Tinha medo de envelhecer. Também pudera, a idade do corpo competia de forma desigual com a de seu espírito e saia perdendo...

Minha madrinha não se casou, tampouco constituiu família,  mas me considerava como sua única filha.  Divertiu-se muito, namorou e brincou demais. Amava uma cervejinha, era pé de valsa e colecionou várias histórias pra contar, sobretudo de amores. Gozadora, às vezes ria até de si mesma. Suas gargalhadas, antes do Parkinson, serão inesquecíveis. 

Tempo atrás, quando eu levei um bolo para comemorar o seu aniversário, como fazia sempre, ela me chamou e perguntou baixinho quantos anos estavam representados nas velinhas. Quando eu disse... (psiu!) ela  arregalou os olhos, tomou um susto e falou que estava errado. "- Não tenho isso tudo, não". Daí pra frente, todos os anos ela me perguntava a mesma coisa e sempre dizia que eu estava enganada. Eu achava engraçado. Hoje, não temos o bolo com velinhas porque faz nove meses que ela partiu. 

Partiu brigando com o corpo envelhecido, doente e que já não comportava seu espírito. Hoje, 12 de maio, eu sei que em algum lugar neste imenso universo, morada certa de todos nós, ela está andando novamente, dançando, rindo, cantarolando, comemorando seu aniversário e a eterna juventude.


Saudades!



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