Cantigas de roda


















Na semana do Dia das Mães, posso afirmar que sempre inventei as letras das músicas que cantarolava para meus filhos. Não usei as cantigas populares que fazem parte do nosso folclore como “o boi da cara preta”, nem tampouco disse que a cuca vinha pegá-los. Tive muitos medos na infância e sei o quanto é difícil administrá-los.

Mas, a educação evolui com o ser humano. Métodos antigos se transformam e dão lugar a análise crítica do que foi por muito tempo reproduzido. Hoje, sabe-se que “atirar o pau no gato” é uma apologia a violência contra os animais. Dizer que “a canoa virou, voltou a virar, foi por culpa do (nome do filho) que não soube remar” faz a criança, essencialmente inocente, conviver com a culpa de ter causado um acidente, além de ter fracassado na sua tarefa de remar ou navegar. “Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar, vamos dar a meia volta [...] o anel que tu me destes, era vidro e se quebrou. O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou” – coitada da criança que já amargou a decepção, no seu universo imaginário, de um amor que se acabou.

Recebi, carinhosamente, o texto abaixo, muito criativo, do meu amigo Otávio, com autoria desconhecida.



DOIS BEBÊS CONVERSANDO NO SÉCULO XXI


- E aí, véio?

- Beleza, cara?

- Pô, mais ou menos...Ando meio bolado com umas paradas aí...

- Que paradas, mano?

- É a minha mãe, tá ligado? Sei lá, ela anda falando umas coisas sinistras, me botando um terror...

- Pô. desenrola aí que eu não tô conseguindo me ligar na parada!

- Saca só: há alguns dias, antes de me botar pra dormir, ela veio com um papo doido, meu! Mandou eu dormir logo senão uma tal de Cuca ia vir me pegar. Pô, nem sei qual é do bagulho dessa tal de Cuca. O que eu fiz pra essa mina querer me pegar? Tu me conhece desde que eu nasci, já me viu mexer com alguém que eu não conheço?

- Nunca!!!

- Pois é... Mas o pior veio depois. O papo doido continuou. Minha mãe disse que quando a tal da Cuca viesse, eu ia estar sozinho, porque meu pai tinha ido pra roça e minha mãe passear. Mas tipo assim, o que meu pai foi fazer na roça? E como minha mãe podia ter ido passear se eu tava vendo ela ali na minha frente? Será que eu sou adotado, cara?

- Como assim, véio?

- Pô, ela deixou bem claro que a minha mãe tinha ido passear. Então ela não é minha mãe. Se meu pai foi na roça, deve ter ido visitar a minha mãe de verdade, tá ligado?

É isso, cara! Meu pai deve estar de caso com essa mulher aqui que diz que é minha mãe, mas eu sou mesmo é filho da caipira que mora na roça. Só pode!

- Calma, maninho... Tu tá nervoso e vendo caô onde pode não ter nada, né não?.

- Sei lá! Por um lado pode até ser melhor assim, viu? Fiquei sabendo de umas coisas sinistras sobre essa que se diz minha mãe.

- Tipo o quê?

- Ela me contou um dia desses que pegou um pau e atirou num gato, mermão! Assim, do nada! Maldade, meu!

- Caraca, véio! Mas por que ela fez isso?

- Pra matar o gato. Pura maldade mesmo. Mas parece que o gato conseguiu sobreviver.

- Ainda bem. Pô, tua mãe tá muito perturbada, cara! Meu tio era meio assim também. O médico falou que foi o crack...

- E sabe a D. Chica da quitanda?

- Sei.

- Parece que ela tava junto na hora e não fez nada! Só ficou lá, paradona, admirada com o gato berrando de dor.

- Putz!!! Aí, tô ficando bolado com esses adultos, mano!

- E num é pra ficar? E ela me contou isso de boa, tipo cantando, tá ligado? Como se estivesse feliz por ter feito essa covardia com o gato. E eu também já me liguei que ela não gosta muito de mim. Dia desse, ela ficou fazendo um monte de careta, tentando me assustar. Aí ela começou a falar que ia chamar um boi aí que tem a cara preta, pra me levar embora porque eu tava com medo das caretas dela. Maior mentira, cara! Aquelas caretas não dão medo em ninguém!!! Pô, mas porque é que eu tenho que ser levado logo por um boi? Deve ser pra ele me levar pra roça e eu ficar junto com a minha mãe verdadeira, é isso!!!

- Nossa, véio! Com certeza ela não é a tua mãe. Nunca que uma mãe ia fazer isso com o filho. Já pensou em sequestro na maternidade? Tá muito na moda essas paradas...

- Já pensei nessa parada aí de sequestro... E ela tem um caso com o meu pai e trai ele ao mesmo tempo, tá ligado? Um dia ela me contou que lá no final da rua mora um cara, num bosque. Ela deve achar o cara bonito pra cacete porque chama ele até de 'Anjo'. E ela disse que o tal do Anjo roubou o coração dela. Ela até falou um dia que se fosse a dona da rua, ia fazer uma obra e mandar colocar ladrilho em tudo, só pra ver ele passar desfilando e tal...

- Caraca, teu pai fechou com a maior vadia!!! Era melhor ele meter o pé logo!

- É... só sei que tô cansado desses papos doidos dela, sabe? Às vezes ela fala algumas coisas sem sentido nenhum. Ontem mesmo, ela tava falando que os escravos de um tiozinho aí estavam jogando um tal de cachangá. Tu conhece esse jogo?
- Nunca ouvi falar...

- Nem eu! É um tal de tira-põe, tira-põe e ainda vem um sequelado chamado Zé Pereira e eles deixam o cara entrar, não sei onde...

- Pô, deve ser algum conhecido deles, tá ligado?

- Sei lá, cara... Sei lá...



Um comentário:

  1. Minha prima querida, meu louco amor,

    Ainda bem que desse mal nunca passamos em casa.

    Só sei que deu uma vontade de entrar nessa foto e compartilhar da companhia desses dois seres tão espetaculares que são nosso Rapha e Amanda...puxa.

    Que saudade.

    Beijos.

    Amo vocês.

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