Repartir o pão



Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo.
Forjar no trigo o milagre do pão e se fartar de pão.
Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel, se lambuzar de mel
Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, propícia estação
 De fecundar o chão.”
O Cio da Terra
Milton Nascimento


 
Peguei um táxi no Rio de Janeiro, de Ipanema para o Jardim Botânico e devido ao trânsito congestionado, não muito diferente de Recife, o motorista iniciou uma conversa. Depois de ter cedido passagem para outro automóvel, que queria adentrar na via principal, ele ressaltou a sua bondade. Afirmou ser um homem bom, gostava de ajudar as pessoas e isso tinha aprendido com a leitura dos livros ditados por Joana D’Ángelis. Prosseguiu citandos alguns trechos de outros livros espíritas, sempre exaltando a necessidade da doação. Quando já estávamos próximos do meu destino, ele perguntou qual a minha procedência e eu disse ser de Recife. Ele se inquietou e falou o quanto o ex-presidente Lula tinha gasto com o PAC – Programa de Aceleração do Crescimento, para ajudar o nordeste, atribuindo ao fato o aumento da dívida pública.  Não continuei a conversa por acreditar não valer à pena.

Mas lembrei, em rápidos segundos, que outro dia estava na fila do Carrefour e um senhor começou a comentar sobre os preços das mercadorias que estavam no seu carrinho. Disse que tinha se aposentado com o equivalente a doze salários mínimos e hoje, recebia apenas cinco. Atribuía a culpa aos agricultores, as pessoas da zona rural que, sem contribuir com a previdência, tinham direito a aposentadoria.

Não vou aqui discutir o mérito da questão, porque além de ser complexa, merece a opinião de um especialista em finanças. Mas, o pouco que sei sobre o PAC é que ele não é um programa assistencialista, mas de estímulo ao investimento privado externo e melhoria na política de exportação; aumento de crédito aos empresários e consequentemente, dos postos de trabalho; crescimento econômico com sustentabilidade do meio ambiente, incluindo os recursos hídricos; valorização do salário mínimo; redução dos gastos públicos; financiamento de moradia para a população de baixa renda; melhoria nas condições de saneamento e redução da desigualdade regional. Sei também, que a crise na Previdência Social não está determinada pela concessão de benefícios ao trabalhador rural, mas passa pelo envelhecimento da população, do reajuste do salário mínimo, da inadimplência de grandes empresas e a da corrupção que atingiu esse benefício. 

Com uma visão preconceituosa em relação à região nordeste, característica de alguns sulistas que ainda acreditam estar na capital da província, o taxista, provavelmente, não tinha conhecimento que em 2010, o Produto Interno Bruto – PIB, do Estado de Pernambuco foi superior ao do país em mais de dois pontos percentuais e isso se deve aos investimentos financeiros internos e externos. Além disso, a região foi a que mais cresceu economicamente em relação às demais. 

Na verdade, tanto o taxista quanto o senhor do Carrefour tem uma parcela de cada um de nós porque entendemos o quanto é difícil para o ser humano o ato de dividir, doar, distribuir. Doar, não o que está nos sobrando, mas o que nos sentimos no direito de possuir. 

Nessa época de Páscoa, a minha mente também viaja até a Galiléia, vislumbra o Mestre Jesus reunido com seus amigos, numa grande ceia que ele sabia ser a última entre os “vivos”. O pão é repartido, o vinho distribuído sob um olhar carinhoso e fraterno. Jesus contempla seus amigos, senta-se à mesa, coloca-se como igual. Observa Judas, prestes a sucumbir pela necessidade de ter e, não de ser. Não o condena. Oferece-lhe também o pão. Avisa-lhe do perigo que o rodeia. Mas, Judas, como cada um de nós sucumbe para ter

Convite à fraternidade, Páscoa também representa a alegria. É através dela que os judeus comemoram a sua libertação da escravidão de quatrocentos anos nas terras egípcias. Simboliza também, para nós cristãos, a comunhão e ressurreição. Comunhão entre a terra e o céu, ressurreição do espírito sobre a matéria.



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