A dor





Ontem, quando fui informada por uma enfermeira bastante simpática, que iria tomar uma injeção muscular e dolorida para debelar uma crise alérgica, pensei que com o tempo todos nós podemos catalogar a dor: aquelas que são momentâneas e instantâneas, não deixando seqüelas físicas nem emocionais e que servem para reduzir outra maior; as que são prolongadas, mas pontuais e aquelas dores que são eternas, presentes e que se tornam menos latentes com a ação lenta do tempo.



Nessa última categoria poderíamos citar as separações físicas, mas não da alma, de um parente que partiu para outro plano, deixando-nos a saudade; a dor de uma ingratidão provocada pela pessoa que menos esperávamos; o fim de um sonho ou ilusão; as decepções; o abandono e o ouvir determinados diagnósticos médicos. Cada um de nós contabiliza e relativiza a dor a sua maneira.




Nesse espaço de tempo, não podemos ignorar que em algum lugar deve existir uma mãe que com seu filho ao colo, não tem condições de dar-lhe tratamento adequado por não possuir uma assistência médica de qualidade; que há pessoas que passam meses para poder fazer um exame para diagnosticar e tratar doenças graves que podem lhe abreviar a vida; que muitos trabalhadores rurais dependem do transporte cedido pelos políticos ou prefeituras de suas cidades para virem à capital, viajando de madrugada para chegarem aos hospitais e ainda correrem o risco de serem informados que o equipamento de exames está quebrado ou o médico não compareceu. Alguns desses pacientes são submetidos a tratamentos prolongados como quimioterapia e por vezes precisam se alojar em abrigos, administrados por verdadeiros soldados da caridade e da renúncia, a exemplo do Núcleo de Apoio aos Doentes do Interior – NADI, aqui em Recife, que sobrevive de doação de religiosos ou simpatizantes da causa.




São tantas as dores que fazem parte da trajetória de cada um de nós. O difícil é aceitá-las, em alguns momentos, apesar de acreditar que cada uma delas traz consigo uma aprendizagem, a ocasião favorável de melhoria íntima, o amadurecimento do ser enquanto espíritos eternos e em evolução. Podemos até externar a dor, mas penso que o grande desafio é não cultivá-la, afastar o pessimismo e o desânimo, numa atitude dificílima, digamos de passagem.




Lembremos de algumas pessoas mais velhas, não todas obviamente, que ensinam que o tempo se encarrega de criar em nós uma couraça de resistência, construída na coragem e alicerçada certamente na fé, seja num pai extremamente amoroso e bom, seja numa energia cósmica capaz de resolver algum de nossos problemas ou dificuldades. Não percamos a esperança. E... se no caminho tivermos a oportunidade de enxugar uma lágrima, não deixemos de fazê-lo.



Beijão.

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