A violência banalizada


http://viverpuramagia.blogspot.com/2009/05/o-enfrentamento.html

As cenas se repetiram por 48 horas em telejornais locais e nacionais. A balconista,  mãe de três filhos, foi tida como refém, durante o assalto a uma farmácia em que trabalhava, na cidade de Garanhuns, há 228 km do Recife. Por mais de duas horas, uma equipe de policiais tentou, em vão, convencer um jovem, de 20 anos, a mudar o rumo de sua história. Mas, com uma faca em punho, o jovem ameaçou por fim, várias vezes, a vida da balconista. Centenas de pessoas assistiam a negociação entre policiais, promotor e bandido, na tentativa de libertar a refém.

A violência estava escancarada.

Obrigada a ajoelhar-se, em poucos segundos, a balconista se viu diante da morte. Mas numa ação rápida, treinada e precisa, um policial tão jovem quanto o bandido, deu o desfecho ao assalto,  atirando na cabeça do criminoso. Tiro justificado, legítima defesa da refém, cumprimento do dever do policial.

Aplausos.

As pessoas aplaudiram!

Os aplausos levaram-me aos relatos históricos das lutas dos gladiadores, nos anfiteatros romanos, onde as pessoas assistiam, delirantes, o derramar do sangue humano no intuito de satisfazer um prazer primitivo, feroz, insano. A morte, não vista pelo prisma da dor, mas do prazer, do lúdico e do poder.

Fiquei imaginando quem era o público, na outrora cidade pacata de Garanhuns. Pais? Mães? Jovens? Idosos? Crianças? Estaria a mãe desse jovem criminoso acompanhando o fim trágico de seu filho? O que deve ter se passado na cabeça dessa mãe, sensação de fracasso? Quais os pensamentos que povoaram a cabeça dos familiares da refém? Ou a cena representou a falência do Estado no cumprimento de políticas públicas capazes de favorecer a inclusão social?

E os aplausos? Estava a sociedade, que hoje se vê encurralada em suas casas com medo da violência, vingada naquele espetáculo sem arena?

Diz o escritor pernambucano Fábio Lucas, no seu livro Quaoar (ed. do autor, 2005) que “a alma da violência não está no revólver, na bala ou no bandido. Está em nossa época, em nosso cotidiano, em nossa mídia, em nossa casa, em nossa escola – no ser que nos tornamos mais do que naquele que somos.”

Bom final de semana.


 

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