Tipo assim...





Quando os filhos nascem, entre outros desejos, alimentamos um: que eles comecem a se comunicar. Afinal, ficará mais fácil saber o que estão sentindo, pensando, desejando...
Sonhamos com o dia em que os filhos se expressem, não apenas pelo choro ou feição, mas pela palavra. De início, pela oralidade, depois começa a nossa torcida para que seja através da palavra escrita antecedida, obviamente, da leitura.

Para as mães que trabalham fora do lar, a primeira vez que os filhos são colocados ao telefone, geralmente por uma babá ou parente, para dizer palavras que só serão compreendidas com muito amor, ficamos tão eufóricas que até parecemos estar mantendo um contato direto com as estrelas. Porque, para a maioria, os filhos são aquelas estrelinhas brilhando no nosso pequeno universo.

Com o passar do tempo, os pequenos vão crescendo e atendendo sozinhos aos telefonemas.  Alfabetizados, é chegada a hora de deixarmos aqueles bilhetinhos carinhosos pela casa, na agenda escolar, no espelho...




Mas, um dos momentos surpreendentes é o dia em que percebemos que está, na caixa de entrada, do nosso e-mail a primeira mensagem de um filho. Inesquecível! Comigo não foi diferente. Inesquecível também foi a mensagem escrita com tantos símbolos e abreviaturas, numa linguagem bem particular dos internautas, que tive de lançar mão da ajuda de uma estagiária que, disfarçando um risinho, leu (decifrou) o que meu filho queria dizer.

Até hoje, não entendo porque se preferem escrever “vlw” ao invés de valeu, “blz” por beleza, ‘bjaum” do que beijão e “naum” por não. Para a escrita de algumas palavras, a quantidade dos toques dos dedos no teclado será o mesmo.Talvez o uso dessa linguagem se justifique pela pressa dos dias atuais. Mas com o tempo, fui avisando aos meus dois filhos que as abreviaturas, quando não oficiais, e resultando na escrita errada de algumas palavras, poderiam prejudicá-los na construção de um texto, no vestibular.

Outro dia, minha filha estava falando com uma amiga, ao telefone, e fiquei prestando atenção. Quando ela terminou, eu chamei meus filhos e disse:

- Vocês sabem que duas palavras serão retiradas do vocabulário da língua portuguesa? Eles ficaram curiosos.
– Quais mainha? Satisfeita, afirmei: - As palavras são “tipo” e “assim”.
Susto!

A cada palavra que minha filha pronunciava, ao telefone, era seguida pela expressão “tipo assim”.

Mas, cada geração tem seu dialeto, sua expressão, forma de vestir e comportamento. “Bicho” “cara”, “paz e amor” já fizeram parte do vocabulário de muitos de nós.

Fico pensando, numa época em que o quarto é dividido com o computador, que temos em mãos o note e netbook, iPhone, iPod e tantos outros artefatos tecnológicos que encurtam distâncias geográficas e facilitam a comunicação, o grande desafio dos pais, comprometidos com a educação, é estabelecer uma comunicação sustentada na afetividade, no carinho, no amor e que seja capaz de minimizar as dúvidas, medos e anseios dos filhos.




E nesta difícil tarefa de formarmos cidadãos, vamos aprendendo com os filhos que é necessário reinventarmo-nos, repensarmos conceitos, trabalharmos preconceitos, quebrarmos paradigmas e transformar aquela que antes seria uma “lição de moral” em orientação clara, transparente e segura. Há uma fase, na vida dos pais, que gostaríamos de ter uma guitarra e barrar o tempo para que, embalados no mesmo som de rock, pudéssemos acompanhá-los e estender a nossa proteção.

Não temos guitarras porque o tempo se divide em passado e presente. Mas, em qualquer época da vida o que deverá nos mover, como pais, será sempre um amor incondicional e, nessa missão, não importa qual a linguagem que usaremos para transmiti-lo. O que importa mesmo é procurarmos manter... “tipo assim” um “papo-cabeça” que estreite a relação e crie cumplicidade. “Tá ligado”?


Publicado no blog em 24.03.2011


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada pela visita.