Os meninos que rasgavam as embalagens




Marido e eu estávamos num shopping hoje à tarde quando, já na saída, nos lembramos de comprar fraldas descartáveis para um chá de bebê que ele irá participar.

Entramos nas Lojas Americanas porque, exceto às promoções, lá pelo que se diz, tem os melhores preços (não é publicidade paga). Depois de muitas escolhas, porque faz muito tempo que esse item deixou de fazer parte de nossas compras, fomos ao caixa. Fila enorme.

Ouvimos uns estalos. Para nossa surpresa eram quatro crianças, entre uns sete a oito anos de idade, que estavam rasgando as embalagens dos esmaltes em promoção, expostos num tabuleiro. Num impulso, eu disse “Não façam isso, vocês estão prejudicando à loja”.

As crianças se entreolharam e procuram com os olhos o adulto responsável por eles, que também estava na fila. Ninguém correspondeu. Meu marido, então, num tom mais alto, disse: “Isso se trata de educação doméstica. É um absurdo a mãe ignorar”.

Silêncio.  

As crianças continuaram mexendo no tabuleiro dos esmaltes, no entanto, sem rasgarem as embalagens. Vez por outra, olhavam para a fila em busca da cumplicidade da mãe, que permaneceu ignorando a situação.

Fomos ao caixa do lado oposto da loja e enfrentamos outra fila enorme, com tanto que saíssemos dali, porque cremos que o silêncio dos pais, hoje, tem grandes possibilidades de se transformar, amanhã, num pranto pela delinquência dos filhos.

E como disse Vinicius, no livro “Em torno do Mestre”:


Bom início de semana.


Quando mudam as estações







Meu corpo possui muitas marcas...

Muitas delas naturais: sinais e sardas.

Outras marcas foram adquiridas com o tempo: as cicatrizes.

Duas delas, registram o nascimento e vida: as cesarianas. 

Mas outras marcas significam correções e alterações na máquina chamada corpo.

Uma vez perguntaram se eu não me importava de ficar com mais uma cicatriz. Eu respondi que não. Porque não gostaria de ficar com o que eu não nasci - mesmo que a intervenção representasse, momentaneamente, uma dorzinha.

Assim mesmo são as mudanças. Elas precisam acontecer em todas as esferas pessoais, mesmo que representem, temporariamente, uma dorzinha. Mas, elas passam, porque tudo passa nesta dimensão material, inclusive nós.

Mas, para que as mudanças aconteçam é preciso planejamento, determinação, coragem e decisão – sentimentos que por vezes, não andam, lado a lado.

O que faz a diferença?  São as vantagens e desvantagens de uma nova rotina, novos costumes, nova situação e nova vida.  

Então, pensando nisso vamos em frente 😊.









Tudo está certo. Não duvide!
















Doar o nosso tempo é sublime





Já visitei muitos abrigos de idosos. Um, em especial, as pessoas ficaram marcadas na minha memória: O Abrigo Cristo Redentor. Uma vez por mês, levávamos sabonetes, desodorantes, pipocas, bolos e outros donativos para os idosos que estavam divididos em dois pavilhões: homens e mulheres.

As mulheres eram sempre receptivas ao carinho e a prosa. Os homens eram desconfiados e monossilábicos. Mas uma coisa sempre chamou minha atenção: o fato de muitas mulheres terem bonecas, sempre vestidas e nominadas. Para essas bonecas, todo o amor e carinho. 

Hoje, eu entendo o quanto aquelas bonecas representavam para aquelas senhoras. Porque todos nós temos um repositório enorme de amor que precisa ser extravasado e elas não tinham a quem doá-lo, simplesmente porque tinham sido esquecidas pelos seus familiares.

Anos depois, com o amadurecimento, eu aprendi que aqueles donativos eram o que menos importavam nas visitas ao abrigo. Porque o que, realmente, era valioso foi o tempo em que todos nós destinamos a ouvi-los. E as histórias eram as mais curiosas e tristes, quando havia nexos.

Conversando certa vez com meu afilhado, que é veterinário, sobre a grande quantidade de lojas para animais, os pet shops - mercado que continua em expansão, ele disse que o motivo era porque as pessoas estavam compensando a ausência-presente. “Muitas pessoas se apegam aos animais porque estão emocionalmente solitárias. As pessoas estão próximas e presentes; mas, paradoxalmente, estão distantes e ausentes já que ficam ocupadas com sua internet, whatsApp e outros interesses individualizados”, explicou.



Então, eu continuo aprendendo que o bem mais precioso que podemos dar a outra pessoa e a nós mesmos se chama “tempo”. É muito fácil doar, sobretudo no período que se aproxima o Natal, objetos, alimentos, roupas e tantas outras coisas -  que poderão um dia até nos fazer falta do que doar o nosso tempo. Doar o nosso tempo é sublime.

Eu falo do tempo que dedicamos aos pais e filhos, aos companheiros (as), a todas as relações familiares e afetivas, incluindo as amizades. Eu falo do tempo em que dedicamos tentamos praticar o bem, sem se restringir apenas ao que existe de material.

O tempo em que destinamos a conversar, falar, ouvir e até nos disponibilizamos a compreender, às vezes aceitar, e até perdoar. Eu falo do tempo de nos permitirmos o ócio, o brincar e o sorrir.

Eu falo deste bem tão precioso chamado tempo - que regula a vida de todos  nós e a natureza, que também determina haver fins de ciclos, início de mudanças e aberturas de novos caminhos, sempre.